A votação sobre a nova Constituição da Guiné-Bissau decorreu sob apelos ao boicote e com uma afluência descrita como moderada, num escrutínio que muitos encaram como decisivo para o rumo do processo de transição. O que estava em jogo ia além de um texto legal. Estava em causa o próprio equilíbrio de poderes que tem alimentado, ano após ano, a instabilidade do país.
As assembleias de voto abriram, na maioria dos casos, às 7h00 e encerraram às 17h00, hora de Bissau. Durante a jornada, todas as fronteiras permaneceram fechadas até às 18h00. A circulação de cidadãos em viaturas ficou igualmente interdita até essa hora.
O movimento nas urnas foi contido nas primeiras horas, tanto nas várias zonas da capital como em localidades do interior, com muitos locais a registarem uma participação abaixo do número de inscritos. Segundo a Deutsche Welle (DW), a consulta popular realizou-se em meio a apelos ao boicote lançados por sectores que contestam a transição e a legitimidade da própria votação. Ainda assim, a Comissão Nacional de Eleições (CNE) traçou um balanço positivo, apontando «uma afluência significativa dos eleitores em algumas regiões e razoável noutras».
O secretário executivo da CNE, Idrissa Djaló, não avançou, contudo, qualquer taxa consolidada de participação. De acordo com a comunicação social guineense, Djaló afirmou que «as informações disponíveis indicam que os cidadãos estão a exercer o seu direito de voto de forma ordeira» e classificou o ambiente nos locais de votação como «caracterizado pela calma, tranquilidade e civismo».
O Presidente de Transição, general Horta Inta-a, votou pouco depois das 10h00, hora local, numa mesa de assembleia no bairro de Luanda, em Bissau. Aproveitou o momento para pedir uma ida às urnas em massa e para rejeitar, sem rodeios, os apelos ao boicote que circulavam pelo país. Dirigiu-se, sobretudo, aos mais novos. «Vim exercer o meu dever como cidadão guineense. Apelo a todos os cidadãos guineenses, principalmente os jovens, para que não aceitem que continuemos a adiar o nosso futuro», declarou. Sublinhou que «esta não é uma questão partidária» e que é «o país que estamos a defender». Observou ainda que muitos eleitores diziam abster-se por acreditarem que o processo visa o regresso de Umaro Sissoco Embaló, antigo Presidente da República. A esses, respondeu que figuras como Braima Camará e Domingos Simões Pereira «são cidadãos guineenses» e têm o seu lugar na Guiné-Bissau.
Também o primeiro-ministro de transição, Ilídio Vieira Té, insistiu no apelo à participação. Para o chefe do Governo, a nova lei fundamental poderá atenuar os choques entre as instituições da República — um dos factores frequentemente apontados como raiz da instabilidade recorrente no país.
Com as urnas encerradas, arrancou a contagem dos votos e o apuramento dos resultados. Nos termos da Lei do Referendo, a CNE dispõe de um prazo máximo de sete dias para publicar o resultado final.


