Uma ferida que se arrasta há três décadas, tratada de forma intermitente e sem recursos para os cuidados mais elementares, deu origem a um pedido de ajuda que pode encontrar eco muito para lá de São Tomé — junto da comunidade lusófona radicada no Luxemburgo e da densa rede de associações que a sustenta.
Idalécio Soares do Rosário tem 53 anos. Vive há cerca de três décadas em Ponta Mina, no distrito de Água Grande, com uma grave lesão numa das pernas. A situação agravou-se progressivamente ao longo dos anos e retirou-lhe, hoje, quase toda a autonomia. O caso foi tornado público pelo jornal santomense Tela Non, a partir do relato da irmã, Camila de Sousa Pires, que descreve uma realidade de doença prolongada, aperto económico e acesso irregular aos cuidados de que o irmão precisa.
Os primeiros sinais terão surgido há cerca de 30 anos. Depois, foi um lento deteriorar. «Desde que começou a ter o problema, a perna começou a inflamar-se. Com o passar do tempo, a situação foi piorando e, aos poucos, chegou ao estado em que se encontra atualmente», conta Camila.
Actualmente, Idalécio necessita de pensos regulares. Nem sempre os consegue. A falta de assistência médica continuada agravou a lesão, sublinha a família. Numa das unidades sanitárias do distrito de Água Grande, a irmã diz ter esbarrado na escassez de material para os curativos. «É muito difícil. Muitas vezes não conseguimos fazer o tratamento. Eu não sei dizer se é por negligência ou por falta de condições», desabafa.
As limitações económicas do agregado pesam. Sem meios para custear, sozinha, tudo o que o tratamento exige, é Camila quem assegura boa parte do sustento do irmão, sobretudo em alimentação e necessidades básicas. A lesão impede-o de trabalhar. «Apenas consegue tomar banho e fazer alguma coisa ligeiramente, dentro das suas possibilidades. Mas trabalhar, não consegue.»
Há dois ou três anos, diz a irmã, o apoio social que Idalécio recebia deixou de chegar. «Quando existia o apoio à família vulnerável, ele estava inscrito e recebia esse apoio. Mas agora não. Dizem que esse apoio foi cortado», afirma. O relato refere-se ao caso concreto e não significa que o Programa Família Vulnerável tenha sido suspenso no país: dados oficiais da Direcção da Protecção Social, Solidariedade e Família indicam que o programa se manteve em funcionamento e que, em 2025, abrangia milhares de agregados em São Tomé e Príncipe, a par da actualização e recertificação do Cadastro Social Único.
Recentemente, Idalécio foi inscrito numa associação de pessoas portadoras de deficiência, uma tentativa de abrir novas portas. O que a família procura é concreto — material para pensos, acompanhamento médico continuado, apoio alimentar. «Só apoiar ele nesse pé. Fazendo o penso, ajudando ele. Alguma coisa que puderem, eu agradeceria imenso», resume Camila.
É aqui que a distância pode encurtar-se. No Luxemburgo, a comunidade oriunda dos países de língua portuguesa ergueu, ao longo de gerações, um tecido associativo denso — colectividades culturais, grupos de entreajuda, estruturas de proximidade habituadas a organizar-se em torno de causas comuns. São essas associações, e os milhares de lusófonos que lhes dão vida, que o caso de Idalécio Soares do Rosário pode agora interpelar. Um homem que, segundo os familiares, convive há décadas com uma doença incapacitante e depende de terceiros para o essencial. Quem quiser estender essa mão pode fazê-lo através do próprio Tela Non, que acompanha o caso e mantém o contacto com a família, pelo correio electrónico contact@telanon.info ou pelo telefone +239 990 6263.
O caso extravasa o drama individual. Uma doença prolongada raramente é só um problema clínico: cruzada com a pobreza, com a incapacidade de trabalhar e com a ausência de uma rede com recursos, resvala facilmente para a exclusão. Fica o pedido — de tratamento, de material, de mão estendida — à espera de quem o possa ouvir.


