Os nós atados a bordo dos navios da Marinha portuguesa ganham agora cores vivas e novos destinos — pulseiras, porta-chaves, quadros e peças decorativas que evocam o mar e que têm cativado a comunidade lusófona do Luxemburgo.
Por detrás desta arte está Hugo Matos, que em entrevista exclusiva ao Letzebuerg Hoje recorda o percurso que o trouxe até aqui. Vinte e oito anos ao serviço da Marinha de Guerra portuguesa: ingressou em janeiro de 1995 e saiu em 2023, para emigrar e reunir-se com Glória, o amor de adolescência que o trouxe até ao Grão-Ducado.

A arte de marinheiro entrou-lhe na vida durante o curso da especialidade de Manobra, onde uma das disciplinas tinha precisamente esse nome. Ao ver os mais antigos a atar nós — uns para o trabalho do dia-a-dia, outros para ornamento —, e a produzir quadros e porta-chaves então muito em voga, começou também ele a experimentar. O gosto ficou.
«A técnica, conforme o trabalho, pode ser fácil mesmo parecendo um bicho de sete cabeças, mas com a prática torna-se mais fácil efectuar os trabalhos», explica.
O processo criativo era, ao início, muito clássico. Foi a mulher quem o empurrou para a cor. «Se fizeres os porta-chaves, as pulseiras, o travessão de cabelo com cores fica giro», sugeriu-lhe Glória. As ideias novas, garante, são sempre bem-vindas.

O material varia com a encomenda: algodão, nylon, poliéster, sisal, cairo. O tempo, também. Há trabalhos rápidos e há-os demorados, tudo depende do nó e da sua complexidade. Os coxins são dos mais exigentes. «O coxim estrelado e o de esquadria dão bastante trabalho porque tem de ficar todo bem homogéneo», nota — e é por isso que demoram a chegar ao ponto que quer.
Muitas peças assemelham-se às que se encontram nas lojas. Servem-lhe de inspiração. Adapta-as, cruza o mar e a terra, procura algo que agrade a quem olha.
Actualmente, participa nos eventos da A.P.S.A. — Association Portugaise Solidaire des Artisans. Tudo nasceu de uma conversa ao acaso, numa festa. Fernando Resende convidou-o depois a ensinar as crianças a fazer pulseiras e porta-chaves, e ele aceitou de bom grado. Foi também assim que começou a mostrar o que faz.
Durante os anos de marinha, pouco divulgava. Quem sabia, pedia-lhe as peças; o boca-a-boca bastava. A emigração trouxe-lhe tempo. Passou a dedicar-se com mais regularidade e a partilhar o trabalho nas redes sociais.
Os porta-chaves e as pulseiras lideram os pedidos. Seguem-se os quadros, para quem quer uma parede mais alegre e uma memória do mar em casa. Faz ainda bases para travessas e copos, argolas de guardanapos, convites, lembranças e até decorações para casamentos e baptizados. As encomendas personalizadas são bem-vindas — quem quiser adquirir uma peça ou encomendar um trabalho à medida pode contactá-lo directamente.
A indústria produz peças semelhantes em série, mais depressa e mais barato. A diferença, porém, sente-se. «A qualidade está no manual», resume. Há quem procure primeiro o preço mais baixo na loja ao lado e regresse, mais tarde, à procura do acabamento à mão.
Sobre o futuro do ofício, Hugo Matos é realista. Acredita que o legado seguirá sobretudo pela mão de quem gosta de trabalhos manuais e conhece a arte de marinheiro. Quem seguir para a marinha e tirar a mesma especialidade dará continuidade à tradição. E há ainda os livros, que ensinam bem a atar os nós.
Por agora, entre encomendas e oficinas para os mais novos, a arte segue viva — e colorida.


