Cerca de três quartos do lixo produzido em Angola não são recolhidos pelos serviços formais, deixando milhões de toneladas de resíduos acumulados nas ruas, terrenos baldios e cursos de água. A dimensão do problema é revelada pelo Relatório Nacional de Resíduos Sólidos Urbanos de Angola, elaborado em 2025 pela Agência Nacional de Resíduos (ANR), em parceria com a consultora Mobizno. Segundo os dados divulgados pelo jornal Expansão, o país produz anualmente cerca de 8,3 milhões de toneladas de resíduos sólidos, o equivalente a 22.740 toneladas por dia. Deste volume, apenas 2,06 milhões de toneladas são recolhidas, o que representa uma cobertura de 24,8%. A reciclagem também continua residual, com uma taxa inferior a 10%.
A acumulação de lixo tornou-se um dos grandes desafios ambientais e sanitários de Angola. O estudo, realizado a partir da análise de 500 agregados familiares em Luanda, com resultados extrapolados para as restantes 20 províncias, revela que grande parte dos resíduos acaba depositada em lixeiras a céu aberto, queimada nos próprios bairros ou abandonada em espaços públicos. A ausência de sistemas eficazes de recolha e tratamento agrava a contaminação dos solos e dos recursos hídricos, expondo as populações a riscos sanitários persistentes. A queima de resíduos, frequentemente utilizada como alternativa à recolha, acrescenta outro problema: a libertação de fumos e substâncias poluentes em zonas habitacionais.
Os efeitos sobre a saúde pública são particularmente preocupantes. O surto de cólera que atingiu Angola no início de 2025, com cerca de 11.500 casos e quase 440 mortes, expôs as fragilidades das condições de saneamento em várias regiões do país. As províncias de Luanda e Icolo e Bengo concentraram 94% dos casos registados, segundo os números apresentados no relatório. Embora a cólera esteja directamente associada ao consumo de água ou alimentos contaminados, a acumulação de resíduos e as deficiências das infra-estruturas sanitárias contribuem para ambientes favoráveis à propagação de doenças. Nas zonas urbanas densamente povoadas, onde os serviços básicos são insuficientes, os riscos tornam-se ainda mais elevados.
O relatório, elaborado para permitir uma compreensão mais rigorosa da gestão dos resíduos sólidos urbanos em Angola, evidencia a necessidade de melhorar os sistemas de recolha, tratamento e reciclagem. Com mais de seis milhões de toneladas de resíduos anuais fora dos circuitos formais de recolha, o país enfrenta um problema que ultrapassa a limpeza das cidades e afecta directamente a qualidade de vida das famílias. A protecção dos cursos de água, a redução das queimadas e o reforço das infra-estruturas de saneamento surgem como prioridades para diminuir os riscos ambientais e sanitários. Os dados divulgados pelo Expansão mostram a dimensão de uma crise que continua presente no quotidiano de milhões de angolanos.



