A literatura africana e afrodescendente no feminino esteve em destaque numa conversa literária que reuniu três escritoras de diferentes origens e percursos, numa reflexão sobre identidade, memória e representação das mulheres na escrita. O encontro realizou-se na Casa da Escrita, em Coimbra, Portugal, com a participação da cabo-verdiana Dina Salústio, de Gisela Casimiro, da Guiné-Bissau, e de Raquel Lima, ligada a Angola e a São Tomé e Príncipe. Segundo o jornal Mindel Insite, a iniciativa integrou a terceira edição da Bienal Afro-Portugal, subordinada ao tema «Afro-Quê?!».
A conversa proporcionou um espaço de partilha sobre obras literárias, experiências pessoais e os desafios enfrentados pelas mulheres africanas e afrodescendentes no universo da criação literária. A presença de Dina Salústio deu particular visibilidade à literatura cabo-verdiana, num encontro dedicado às diferentes formas de expressão da identidade feminina. «Vamos falar das escritas que nos abraçam», afirmou a escritora, destacando o carácter intimista e colectivo da iniciativa. O debate procurou igualmente contrariar estereótipos, revisitar o passado colonial e colocar as experiências das comunidades negras no centro da reflexão cultural contemporânea.
A decorrer até 30 de Outubro, a Bienal Afro-Portugal 2026 reúne artes visuais, teatro, música, literatura e pensamento crítico, com especial atenção às heranças coloniais, à decolonialidade e às perspectivas de futuro. O programa inclui debates sobre racismo e reparação histórica, bem como as Jornadas de Feminismos Africanos, dedicadas ao papel das mulheres nas transformações culturais e sociais. Uma das novidades desta edição é a primeira residência artística destinada a dois jovens afrodescendentes com menos de 35 anos. A exposição «O Nosso Lugar no Agora», patente na Casa da Esquina até ao final do mês, apresenta trabalhos de oito jovens artistas visuais, reforçando a aposta na divulgação de novas vozes e linguagens artísticas.
A iniciativa resulta de uma colaboração entre o Teatro Académico de Gil Vicente, A Escola da Noite, Cena Lusófona e Casa da Esquina, com o apoio de várias instituições culturais e académicas. Concertos, espectáculos de teatro, performances, sessões de cinema e uma mostra de poesia visual africana completam a programação. Depois de duas edições centradas no passado colonial e nas mobilidades culturais, a bienal regressa com uma abordagem crítica aos rótulos associados à contemporaneidade negra. Coimbra afirma-se, assim, como ponto de encontro entre diferentes gerações de artistas, escritores e pensadores, num diálogo que aproxima as culturas africanas e afrodescendentes através da arte e da palavra.



