A valorização da fibra de sisal como matéria-prima artística e marca identitária de Cabo Verde encontra em Mizé Sanches uma das suas expressões mais inovadoras, com bolsas e acessórios que cruzam tradição, sustentabilidade e design contemporâneo. As peças da marca Mizé Acessórios chegarão ao Luxemburgo em Julho, integradas num evento anual da comunidade de São Vicente, depois de uma passagem pela CPLP Fashion Week, em Portugal, em Maio.
O percurso da artesã começou de forma espontânea, ainda no primeiro ano da licenciatura, quando tentou recriar colares chokers trazidos por uma prima vinda da Suécia. Após adquirir materiais no Plateau, as primeiras criações destinavam-se ao uso pessoal, mas rapidamente despertaram a curiosidade de colegas e amigos, transformando um passatempo num pequeno negócio. Consciente de que produzir não bastava, Mizé investiu em formação para reforçar competências de gestão, relação com clientes e estruturação da sua própria marca.
Em 2018, produziu a sua primeira bolsa em sisal, sem grande base técnica, mas foi durante a pandemia de COVID-19, em 2020, que decidiu apostar a sério neste material. Com o ateliê no Palácio da Cultura Ildo Lobo encerrado, dedicou-se ao estudo da fibra sob a orientação do mestre senegalês Daniel, especialista em bolsas e batique, que durante três meses lhe ensinou os fundamentos do corte e da modelação. Seguiram-se seis meses de experimentação até atingir um resultado capaz de garantir durabilidade às peças, dando origem à colecção ‘Siza Karapati’. Por incentivo do então Ministro da Cultura, Mizé abandonou o sisal importado e passou a trabalhar com fornecedoras nacionais, contribuindo para recuperar uma actividade que já foi fonte de rendimento em comunidades como a de Fonte Lima, no interior de Santiago.
O trabalho da artesã tem conquistado particular acolhimento junto da diáspora cabo-verdiana e marcado presença em mostras internacionais, com passagens pela Índia, pelo Festival Internacional da Moda Africana, em Marrocos, e por Portugal. A partir do ateliê no Plateau, onde trabalha com uma equipa de três pessoas, Mizé defende um preço justo para o artesanato, sublinhando que cada peça envolve tempo, técnica e identidade. Para o futuro, pretende consolidar a marca e alargar o uso da fibra de sisal a novas áreas, da decoração ao vestuário, levando a matéria-prima cabo-verdiana cada vez mais longe.


