Odisseias espaciais e retratos íntimos da História recente cruzam-se no grande ecrã ao longo de setembro, num programa que percorre mais de meio século de cinema. As sessões, organizadas pela Cinemateca de Luxemburgo, decorrem no Théâtre des Capucins, no coração da capital, e reúnem restaurações, clássicos e obras premiadas em torno de dois fios condutores: o imaginário do futuro e a força da animação de autor.
O único filme para cinema de Albert Barillé abriu esse percurso. Criador das séries de animação Il était une fois…, Barillé assinou em 1983 a sua própria space opera, La Revanche des humanoïdes, numa altura em que a ficção científica irrompia na cultura francesa ao ritmo dos êxitos de A Guerra das Estrelas, Goldorak e Albator. A imaginação é transbordante. A banda sonora, inesquecível, leva a assinatura de Michel Legrand. Com 99 minutos e recomendada a partir dos 7 anos, a projecção integrou o ciclo Afternoon Adventures e foi antecedida de uma introdução ao cinema de ficção científica, pensada como chave de leitura para os espectadores mais novos.
Um outro título dá nome a um ciclo inteiro. Persepolis, realizado em 2007 por Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, regressa em cópia restaurada em 4K e pode ser visto a 14 de setembro, às 18h30. Adaptada da banda desenhada autobiográfica de Satrapi, a longa-metragem acompanha o crescimento de Marjane no Irão durante e depois da Revolução Islâmica, entre convulsões políticas, laços familiares e, mais tarde, o exílio na Europa. O traço a preto e branco, de aparente simplicidade, não é apenas uma opção gráfica: transforma uma história profundamente pessoal numa reflexão universal sobre revolução, identidade e pertença. O riso e o choro convivem no mesmo plano, sem que a dureza da ditadura — a intolerância, as detenções — alguma vez se apague. O filme valeu o Prémio do Júri em Cannes, em 2007, e uma nomeação para o Óscar de melhor filme de animação. No elenco de vozes figuram Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux e Simon Abkarian.
Fecha o conjunto um marco absoluto do género. 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, volta em versão original legendada a 29 de setembro, às 20h00. Rodado em 1968 e distinguido no ano seguinte com o Óscar de melhores efeitos visuais, o filme parte da descoberta de um monólito negro que atravessa as eras para lançar uma expedição pelo espaço. A bordo, a tripulação e o computador HAL 9000 confrontam-se com enigmas que desafiam o entendimento humano. Kubrick prescinde da música que dita emoções e das explicações fáceis, deixando o espectador a sós com os seus pensamentos — uma ousadia rara no cinema da época. São 139 minutos que levantam mais perguntas do que oferecem respostas.


