O samba e o pagode que há anos animam os palcos luxemburgueses deram agora um passo decisivo. O colectivo musical brasileiro com forte implantação junto da comunidade lusófona avançou para a constituição formal de uma associação cultural, com o objectivo de ganhar credibilidade e alargar o seu raio de acção.
O Grupo +352 aguardava a aprovação da Associação Oficina do Samba, ASBL, o que aconteceu recentemente. À frente do projecto estão três nomes: Carlos Salgueiro, conhecido como Xixa, o cantor Diego Sensação e Samanta, irmã de Carlos e percussionista. Em declarações ao Letzebuerg Hoje, os responsáveis explicaram que a formalização nasce de um percurso que os levou de café em café até encherem salas dentro e fora do país.

A ideia amadureceu ao longo de meses. Com o grupo a ser abraçado pela comunidade, os fundadores perceberam que havia margem para ir mais longe, e a figura jurídica da associação surge como forma de consolidar esse crescimento. O repertório, esse, nunca se fechou no samba: há lugar para música portuguesa, cabo-verdiana e temas internacionais. O público acompanha essa diversidade — brasileiros, portugueses, cabo-verdianos e italianos cruzam-se nas plateias.
Xixa traz uma bagagem longa, natural do Rio Grande do Sul, foi mestre de bateria no seu estado de origem e vive no Luxemburgo há cerca de vinte anos. Durante uma década, animou o espaço Maria Bonita, onde cruzou caminho com Diego Sensação, hoje a voz principal do grupo. Quando esse ciclo terminou, no ano passado, arrancou o projecto que agora se transforma em associação. Samanta, percussionista que cresceu no samba ao lado do irmão, completa o núcleo duro. Para os concertos maiores, o trio reforça a formação com músicos convidados vindos de Bruxelas e do próprio Luxemburgo.
A projecção do +352 não se ficou pelas fronteiras do Grão-Ducado. Düsseldorf tornou-se um segundo território: numa terceira passagem pela cidade alemã, o grupo reuniu cerca de 250 pessoas. Antes disso, o cantor Nemias colaborou com a formação numa fase que os próprios classificam como marcante, seguindo depois para um projecto próprio.
Os planos para a nova estrutura, a Oficina do Samba, vão muito além dos espectáculos. Um dos projectos é o Pagode do Pretinho, que Xixa quer levar a outros países, a par da vontade de marcar presença nas grandes festas do país. A associação pretende também abrir portas a bailarinos, capoeiristas e novos músicos, com a mira num espectáculo de maior dimensão. E há a componente pedagógica. Xixa já dinamizou uma oficina de samba às quintas-feiras, que juntou cerca de quinze pessoas e por onde passou o próprio Diego, então sem grande experiência instrumental. A intenção é recuperar essa vertente e ensinar quem quiser aprender.
Falta, contudo, o essencial: um espaço fixo. O ritmo de trabalho não dá tréguas. Só nos últimos três meses, o grupo somou 55 actuações, e a agenda de quinta a domingo não deixa margem para ensaios formais — as músicas novas nascem em cima do palco. Daí o apelo lançado à comunidade. Xixa, que reside em Esch-sur-Alzette, admite recorrer à comuna para encontrar uma sala e aponta a cooperação com autarquias da zona, como a própria Esch ou Differdange, onde a presença lusófona é forte. Enquanto não surge esse local, a associação será registada na sua residência.


