Uma emissão montada a partir de uma sala de estar chega a ouvintes espalhados por vários países e, ainda assim, continua sem um espaço próprio para crescer. Chama-se Rádio 100 Frontêra — trocadilho que se lê «sem fronteira», e é essa a divisa da estação: «aqui não tem fronteira». Por trás dela está Adriano David, cabo-verdiano radicado no Luxemburgo há doze anos, que em entrevista ao Letzebuerg Hoje descreve um projecto nascido do improviso e mantido, quase sozinho, à custa de horas roubadas ao fim-de-semana.
A ligação à rádio vem de longe. Antes de emigrar, trabalhou na Rádio Nacional de Cabo Verde, a estação pública do arquipélago, de que continua colaborador. Passou por Paris antes de se fixar no Grão-Ducado, mas a vontade de ter uma rádio sua nunca o largou. Chegou a delinear um projecto com um amigo, Jonny, que apresentava na Rádio Latina um espaço dedicado à comunidade cabo-verdiana. A morte do companheiro travou os planos. A ambição, essa, ficou.
O empurrão veio no pior momento possível. Com o país fechado pela pandemia e as pessoas em casa, Adriano David decidiu arriscar. Recorreu a uma plataforma brasileira, barata e, nas suas palavras, «excelente», e pôs a emissão no ar. Seis anos depois, a Rádio 100 Frontêra continua de pé — por enquanto apenas online, ainda que o sonho de um dia chegar à FM não esteja arrumado.
O propósito é simples e ele repete-o sem rodeios: acompanhar a comunidade cabo-verdiana do Luxemburgo, nas actividades culturais e desportivas, e trazer o que se passa no arquipélago. O acesso facilita a tarefa. Adriano David diz ter «carta branca» na rádio pública cabo-verdiana e emite programas enviados por jornalistas de lá, que assim chegam a quem vive longe.
A audiência há muito ultrapassou as fronteiras luxemburguesas. Há ouvintes nos Países Baixos, onde a comunidade é numerosa, mas também em França, em Portugal e em Itália. Nos registos da emissão, conta, já apareceram acessos vindos da China — talvez de Macau, onde vivem, há gerações, famílias cabo-verdianas. Para acompanhar, há uma aplicação própria, disponível no Google Play, que permite ouvir a emissão em directo, ver imagens do estúdio e consultar a grelha de programação e um website dedicado à emissão www.radio100frontera.com.
Rádio de comunidade, define. E é aqui que o tom muda. Abriu a antena aos cabo-verdianos do Luxemburgo, convidou-os a participar, e esperava mais. A adesão local, admite, ficou aquém. Chega a ter mais atenção de ouvintes nos países vizinhos do que dentro do próprio país onde vive, algo que classifica, sem meias palavras, de lamentável. A comunidade daqui é fechada, observa, tal como, no seu entender, outras comunidades de emigrantes.
A leitura que faz da rádio, porém, recusa a nostalgia. «Não é uma rádio de saudade», afirma. Descreve-a antes como «uma rádio de actualidade e de ligação às raízes», feita para mostrar o que há de moderno e a forma como a comunidade vive, no dia-a-dia, longe do arquipélago.
Do lado institucional, o balanço é positivo. David realça a boa relação com a embaixada de Cabo Verde no Luxemburgo, tanto com a actual embaixadora, Edna Marta Monteiro, a quem se refere com apreço, como com o seu antecessor. A representante, nota, deverá estar perto do fim da missão.
Falta o essencial: uma casa para a rádio. A emissão sai, ainda hoje, do seu apartamento em Differdange, o que limita tudo — basta querer juntar mais de quatro pessoas numa entrevista para o espaço faltar. O primeiro passo, garante, é conseguir um local, talvez com apoio do Governo luxemburguês, que costuma acompanhar este tipo de iniciativas, e depois alargar a equipa. Seis anos volvidos, confessa ter esperado ir mais longe. Mantém, mesmo assim, a ambição intacta, e o desejo de que um dia sejam mais os que estão do seu lado.


