Sessenta e oito bebés morreram no ventre materno entre Janeiro e Março de 2026 no Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV), em Díli, Timor-Leste — um número que está a preocupar as autoridades de saúde timorenses e que coloca em evidência as fragilidades do acompanhamento pré-natal no país. No mesmo período, a maternidade do hospital registou 1.748 nascimentos, dos quais 934 do sexo masculino e 814 do sexo feminino.
A directora do Departamento de Maternidade do HNGV, Zinia Mascarenhas, identificou como principais causas da mortalidade fetal um conjunto de condições de saúde materna, entre as quais se destacam infecções, hipertensão arterial e complicações graves como a pré-eclâmpsia e a eclâmpsia. Segundo a responsável, a ausência de vigilância médica regular durante a gravidez é um dos factores determinantes neste cenário. “É fulcral que as mães realizem controlos de saúde regularmente durante a gravidez, para que se possam detectar precocemente eventuais problemas e receber o tratamento adequado”, sublinhou.
Zinia Mascarenhas apelou ainda a todas as grávidas para que não hesitem em recorrer ao hospital ou a um centro de saúde sempre que surjam sintomas preocupantes, como dores intensas abdominais, redução dos movimentos do bebé ou outros sinais anormais que possam indiciar complicações.
O Departamento de Maternidade do HNGV tem vindo a desenvolver um conjunto de medidas destinadas a melhorar a qualidade dos cuidados prestados, nomeadamente através da aquisição de equipamentos médicos, da formação de profissionais de saúde e da realização de campanhas de educação dirigidas às grávidas, incidindo sobre nutrição, higiene e preparação para um parto seguro.
A problemática ultrapassa, porém, o âmbito estritamente clínico. Domingos da Silva, académico da Universidade Oriental Timor Lorosa’e (UNITAL) e especialista em Enfermagem, defende que as mortes fetais em Timor-Leste resultam também de factores sociais e educativos profundamente enraizados nas comunidades. O especialista advoga uma abordagem integrada, que vá além das paredes do hospital e que inclua a educação das comunidades, o envolvimento das famílias e um maior investimento por parte do Estado na garantia do acesso universal aos cuidados de saúde.
Domingos da Silva chama ainda a atenção para a influência do nível educativo das mães na qualidade dos cuidados prestados durante a gravidez, bem como para o papel das condições económicas e do acesso à informação sobre saúde. As mães com menor acesso a informação sobre nutrição, higiene e a importância das consultas regulares, alerta, estão expostas a um risco significativamente maior de complicações. O académico recomenda que o governo e as instituições competentes intensifiquem as campanhas de educação nas zonas rurais, reforcem os serviços de saúde primários e garantam que todas as grávidas possam acompanhar a sua gestação de forma acessível e sem barreiras económicas.


