A relação entre o Luxemburgo e a China faz-se de investimentos, empresas e contactos institucionais, mas também de encontros à mesa, viagens e iniciativas culturais. Para Zhang Yong, presidente do Luxembourg Euro-Asie Schengen International Group, é sobretudo no contacto entre pessoas que se criam condições para um conhecimento mais profundo dos dois países. Em entrevista ao Lëtzebuerg Hoje, o empresário fala das actividades que desenvolve no turismo, na organização de eventos e nas relações comerciais, explicando como procura transformar essa ligação numa experiência acessível a diferentes públicos.
O seu percurso está ligado à história da imigração chinesa no Grão-Ducado. O pai chegou ao Luxemburgo no início dos anos 80 e, três anos depois, a família abriu um restaurante em Remich, no vale do Mosela. Zhang Yong juntou-se à família em 1985, quando tinha dez anos. Natural de Qingtian, na província chinesa de Zhejiang, recorda uma origem marcada pela emigração e pela procura de oportunidades no estrangeiro. No Luxemburgo, o restaurante familiar tornou-se um espaço de trabalho, mas também de aproximação à população local.
Essa convivência não se construiu de um dia para o outro. Numa região ligada à agricultura, às vinhas e à produção de vinho, Zhang Yong recorda alguma reserva inicial perante uma gastronomia e uma cultura pouco conhecidas. Com o tempo, os contactos tornaram-se mais próximos. «Passo a passo», resume, ao descrever a abertura que foi observando entre os habitantes. Na sua leitura, os restaurantes tiveram um papel importante na apresentação da China aos luxemburgueses, criando ocasiões quotidianas de encontro muito antes de outras formas de intercâmbio ganharem expressão.
Depois de estudar em Boston, Zhang Yong passou um ano em Xangai a aprofundar os conhecimentos de língua chinesa. Ajudou também os pais no negócio familiar, antes de desenvolver as suas próprias actividades. Na entrevista, situa em 2007 o início do projecto turístico cuja passagem pelas duas décadas pretende assinalar no próximo ano. Ao longo desse percurso, foi alargando a intervenção a diferentes áreas, mantendo como ponto de ligação o trabalho entre os mercados e as comunidades do Luxemburgo e da China.

O turismo ocupa um lugar central nessa estratégia. Uma das vertentes consiste em organizar viagens de residentes do Luxemburgo e de outros países europeus para destinos asiáticos, entre os quais a China, Macau, Hong Kong, o Japão e o Vietname. A outra passa pelo acolhimento de visitantes chineses na Europa e pelo apoio às suas deslocações. Zhang Yong explica que este trabalho envolve reservas, transportes, transferes, tradução e organização logística, incluindo serviços destinados a empresas chinesas presentes no Grão-Ducado.
Mais do que levar visitantes de um lugar para outro, o empresário entende as viagens como uma oportunidade para confrontar ideias prévias com a realidade encontrada. Conta que alguns clientes começam por manifestar hesitações em relação à China, associadas ao sistema político, à distância cultural ou às dificuldades de comunicação. Segundo a sua experiência, muitos regressam satisfeitos e surpreendidos com aquilo que conheceram. «Vão e vejam», recomenda, defendendo que a observação directa e as conversas com a população ajudam a formar uma opinião mais informada.

Zhang Yong considera que parte da imagem da China na Europa continua marcada por uma cobertura mediática que, na sua avaliação, privilegia os aspectos negativos. A sua resposta passa pela organização de viagens e de actividades culturais que permitam conhecer outras dimensões do país. A dimensão do território e a diversidade das regiões são, para o empresário, razões para evitar programas demasiado apressados. Entre os lugares que menciona encontram-se a Grande Muralha, o Exército de Terracota, Guilin e as paisagens de Zhangjiajie, exemplos de uma oferta que considera impossível conhecer de forma aprofundada numa única deslocação curta.
Macau poderá ganhar maior destaque nos seus itinerários. Zhang Yong conta que visitou o território recentemente e que essa experiência o levou a repensar a organização dos programas que incluem Hong Kong. Se anteriormente os grupos ficavam alojados em Hong Kong e se deslocavam a Macau por um dia, pretende agora explorar a possibilidade inversa: permanecer em Macau e realizar visitas a Hong Kong. Na sua avaliação, os custos e a variedade de actividades disponíveis justificam essa alteração, permitindo também dedicar mais tempo ao território especialmente pela sua ligação à Lusofonia que também tem uma presença de peso aqui no Grão-Ducado.

No Luxemburgo, a aproximação cultural ganha visibilidade em eventos como o Festival dos Barcos-Dragão, em Remich, e as celebrações do Ano Novo Chinês, em Mondorf. Zhang Yong apresenta estas iniciativas como parte do trabalho desenvolvido pela sua estrutura de organização de eventos. São ocasiões que juntam participantes de diferentes origens e permitem estabelecer contactos num ambiente de convívio, através do desporto, da festa e da descoberta de tradições chinesas.
O Festival dos Barcos-Dragão é um dos exemplos mais expressivos. Segundo o empresário, a edição mais recente contou com 18 equipas, entre as quais representantes de bancos chineses, seguradoras e outras empresas. Zhang Yong sublinha que a participação está aberta a novas equipas empresariais do Luxemburgo. A iniciativa permite, assim, reunir instituições e trabalhadores de diferentes sectores numa actividade colectiva, criando relações que vão além dos contactos profissionais habituais.

Entre os projectos anunciados para os próximos meses encontra-se um concurso de fotografia e vídeo sobre a China, previsto para Dezembro, em colaboração com o Automobile Club du Luxembourg e o Centro Cultural da China no Luxemburgo. A proposta prolonga o trabalho de organização de viagens e dá aos participantes uma oportunidade para partilharem aquilo que observaram. As imagens recolhidas pelos viajantes poderão tornar-se mais uma forma de apresentar o país a quem ainda não o conhece e de despertar interesse por futuras deslocações.
As comemorações dos vinte anos da actividade turística incluem também a preparação de uma viagem a Chongqing, combinada com um cruzeiro no rio Yangtzé. À data da entrevista, Zhang Yong afirmava que mais de duas centenas de pessoas já se tinham inscrito. O programa de actividades referido pelo empresário contempla igualmente novas celebrações do Ano Novo Chinês e o regresso do Festival dos Barcos-Dragão, previsto para Junho do próximo ano.
A ligação entre os dois países estende-se à actividade económica. Além do turismo e dos eventos, Zhang Yong refere negócios no sector imobiliário e trabalho de intermediação comercial, nomeadamente na ligação entre fabricantes chineses de autocarros eléctricos e potenciais compradores no Luxemburgo e noutros mercados europeus. Explica que a intervenção depende dos mercados e das parcerias existentes, procurando aproximar empresas e facilitar contactos. O apoio logístico a sociedades chinesas instaladas no Grão-Ducado constitui outra componente dessa actividade.
Na sua avaliação, o Luxemburgo reúne condições favoráveis para atrair empresas chinesas: estabilidade política, capacidade de adaptação, relações entre os dois países e um ambiente internacional onde convivem pessoas de numerosas origens. Zhang Yong destaca também a facilidade de comunicação em inglês como um elemento que ajuda visitantes e empresários a movimentarem-se no país. A experiência de viver entre duas culturas permite-lhe identificar necessidades práticas e prestar apoio a quem chega com conhecimento limitado da realidade local.

O empresário reconhece, contudo, que o turismo atravessa dificuldades. Refere uma redução da procura de viagens da China para a Europa, que associa à situação económica chinesa, à crise imobiliária e à diminuição de alguns orçamentos de deslocação. Na sua leitura, estes factores normais em qualquer economia, influenciam a disponibilidade das famílias e das organizações para viajar. Esse contexto exige adaptação por parte das empresas do sector, que procuram responder com serviços de organização, reservas e acompanhamento.
Ao longo da entrevista, Zhang Yong regressa à importância do contacto directo. O restaurante da família, as viagens, os festivais e as relações empresariais surgem como diferentes formas de aproximar pessoas que nem sempre conhecem a realidade umas das outras. Para o empresário, a comunidade chinesa residente no Luxemburgo pode desempenhar um papel activo nesse processo, ajudando a tornar a China mais próxima através de experiências concretas. É nessa continuidade, construída ao longo de décadas, que enquadra as próximas iniciativas. Sendo que Macau, pela sua ligação ao universo Lusófono, tão presente na realidade do Luxemburgo, pode ser também uma das portas de entreda para os residentes do Grão-Ducado.




