A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, avisou que o mundo está a entrar numa fase marcada por “incerteza genuína”, impulsionada por tensões geopolíticas e por uma transformação tecnológica sem precedentes, defendendo uma resposta assente no reforço da cooperação internacional. A posição foi apresentada durante a conferência anual Global Risk Lecture, em Bolonha.
Na sua intervenção, Lagarde traçou uma perspetiva histórica sobre o conceito de risco, recordando que foi em cidades italianas como Veneza, Génova e Florença que surgiu a ideia de que o futuro poderia ser analisado e quantificado. Essa evolução permitiu medir o perigo e estabelecer mecanismos financeiros que sustentaram o desenvolvimento do comércio e da economia moderna. Durante décadas, esse modelo assentou numa base relativamente estável, onde os dados do passado serviam de referência para decisões futuras, explicou, de acordo com informações divulgadas pela conferência.
Contudo, esse enquadramento está a desaparecer. A pandemia revelou fragilidades nas cadeias globais de abastecimento, a guerra na Ucrânia alterou profundamente o panorama de segurança na Europa e o comércio internacional transformou-se num instrumento de disputa estratégica. Ao mesmo tempo, as restrições comerciais intensificaram-se de forma significativa entre as principais economias mundiais, sinalizando uma tendência crescente de fragmentação.
Em paralelo, o avanço da inteligência artificial está a redefinir o potencial económico global. Lagarde destacou que estas duas forças — inovação tecnológica e fragmentação geopolítica — estão a evoluir em sentidos opostos, criando um cenário de elevada imprevisibilidade. Estimativas apontam que a inteligência artificial poderá impulsionar a produtividade global de forma significativa, mas uma fragmentação acentuada da economia mundial poderá ter o efeito contrário, reduzindo substancialmente o crescimento. “Estamos perante um leque de cenários mais amplo do que em qualquer momento das últimas décadas”, afirmou, segundo a mesma fonte.
Para ilustrar os riscos atuais, a responsável do BCE recorreu ao exemplo dos anos 1920, quando uma vaga de inovação tecnológica coincidiu com o enfraquecimento da cooperação internacional após a Primeira Guerra Mundial. Embora o progresso tecnológico tenha impulsionado o crescimento económico, a ausência de um sistema global estável acabou por agravar o impacto da crise que se seguiu ao colapso dos mercados financeiros em 1929, conduzindo à Grande Depressão. Lagarde sublinhou que, na altura, o erro foi tratar tecnologia e geopolítica como fenómenos independentes, quando na realidade estavam profundamente interligados.
Ao contrário desse período, a atual revolução tecnológica depende diretamente da integração global. A produção de tecnologias essenciais, como os semicondutores, envolve cadeias de abastecimento distribuídas por vários países, enquanto os elevados custos de desenvolvimento da inteligência artificial exigem acesso a mercados globais para serem sustentáveis. Além disso, os sistemas de IA dependem de grandes volumes de dados diversificados, o que torna a fragmentação ainda mais prejudicial. Qualquer limitação ao comércio, à tecnologia ou ao fluxo de dados poderá comprometer diretamente o desenvolvimento e a eficácia destas ferramentas.
Perante este cenário, Lagarde defendeu uma estratégia baseada em três níveis de cooperação. Em primeiro lugar, sublinhou a necessidade de reformar e fortalecer as instituições internacionais existentes, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio, em vez de as abandonar. Em segundo lugar, destacou a importância de aprofundar a cooperação entre países aliados, especialmente em áreas estratégicas como as cadeias de abastecimento e a inovação tecnológica. Por fim, considerou essencial manter formas mínimas de cooperação com países rivais, nomeadamente para garantir o funcionamento de setores críticos e evitar ruturas com impacto global.
A concluir, Lagarde evocou um episódio histórico do século XIV, quando mercadores italianos criaram os primeiros contratos de seguro para lidar com a incerteza comercial, sublinhando que a cooperação foi, desde então, um elemento central para enfrentar períodos de instabilidade. “Num mundo que tende a fragmentar-se, o ato mais importante de gestão de risco é preservar as ligações fundamentais”, afirmou, como avançou a mesma fonte.
A responsável deixou assim um aviso claro: ignorar a interdependência entre tecnologia e geopolítica poderá repetir erros do passado, enquanto uma aposta estratégica na cooperação poderá determinar o futuro da economia global.


