Levar consultas de especialidade, e totalmente gratuitas, a quem vive nas ilhas mais isoladas de Cabo Verde e não tem meios para pagar nem tempo para aguentar as intermináveis listas de espera do sistema público. É esse o propósito do projecto Bata Branca, nascido em 2018 do incómodo de um cabo-verdiano perante a doença de quem tem menos.
O modelo assenta na boa vontade. Médicos e enfermeiros cedem os seus dias e a sua experiência sem cobrar um cêntimo, aproveitando períodos autorizados pelas instituições, sem descontos no salário ou nas férias. O dinheiro angariado não paga honorários: cobre apenas a deslocação, a alimentação e o alojamento dos profissionais que aceitam embarcar para as ilhas mais pequenas, onde muitas vezes só se chega de avião. Em declarações à Rádio 100 Fronteira, o mentor da iniciativa, Jailson Melisse, sublinhou que o projecto não concorre com o sector público nem com o privado — completa-os, chegando a quem, de outra forma, dificilmente veria um especialista.
A primeira missão decorreu numa das ilhas mais pequenas e isoladas do arquipélago, e a procura ultrapassou as previsões: estavam pensadas consultas para pouco mais de uma centena de crianças e acabaram por ser atendidas cerca de duzentas pessoas. O passo seguinte aponta a São Nicolau, com trabalho previsto entre 3 e 10 de outubro e especialidades já garantidas em pneumologia, cardiologia, dermatologia, ortopedia, oftalmologia e medicina dentária. Para sustentar estas deslocações, uma actividade solidária rendeu cerca de dois mil euros, juntando o valor angariado num convívio ao contributo da Associação dos Veteranos do Norte; entre os parceiros contam-se ainda o Banco BCN e várias câmaras municipais. No ar fica um apelo à autarquia de Tarrafal, que, segundo o responsável, não respondeu até agora aos contactos.
O apelo estende-se à diáspora, incluindo a comunidade cabo-verdiana no Luxemburgo. Partilhar publicações, comentar, doar mesmo pequenas quantias — tudo conta, garante o mentor, que faz questão de vincar um ponto: nenhum cêntimo dos donativos remunera organizadores ou intermediários, indo por inteiro para a logística de quem trata os doentes. Falta gente, e a porta continua aberta a médicos e enfermeiros dispostos a ceder uns dias, incluindo a pediatria, ainda por preencher para a próxima etapa. Por trás de tudo há uma ideia simples, que Jailson Melisse não se cansa de repetir: hoje ajuda-se quem precisa, amanhã pode ser a nossa vez.


