A possibilidade de um desfecho para o conflito armado mais mortífero na Europa desde a Segunda Guerra Mundial ganhou novo contorno no passado sábado, com indicações de que a guerra na Ucrânia poderá estar a aproximar-se do seu termo. “Penso que a questão se está a aproximar do fim”, afirmou o presidente russo, Vladimir Putin, a jornalistas, mostrando-se disponível para negociar uma nova arquitectura de segurança para o continente europeu e apontando o ex-chanceler alemão Gerhard Schroeder como o seu interlocutor preferido. As declarações surgiram poucas horas após a parada do Dia da Vitória em Moscovo, a mais reduzida dos últimos anos, assinalada anualmente a 9 de Maio em homenagem aos 27 milhões de cidadãos soviéticos que perderam a vida durante a Segunda Guerra Mundial.
Apesar da abertura ao diálogo, o Kremlin anunciou que as conversações de paz mediadas pela administração do presidente norte-americano, Donald Trump, se encontram suspensas, tendo Putin reiterado a determinação de prosseguir até que todos os objectivos militares sejam alcançados naquilo que Moscovo designa por “operação militar especial”. O líder russo responsabilizou os dirigentes ocidentais “globalistas” pelo incumprimento de promessas feitas sobre a expansão da NATO após a queda do Muro de Berlim, criticando ainda a aproximação da Ucrânia à órbita da União Europeia. Em vez da habitual exibição de mísseis balísticos intercontinentais e tanques na Praça Vermelha, a Rússia optou este ano por projectar vídeos do seu equipamento militar em grandes ecrãs erguidos junto às muralhas do Kremlin.
À frente do país desde o último dia de 1999, Putin enfrenta um clima de apreensão em Moscovo perante um conflito que já causou centenas de milhares de mortes, deixou em ruínas vastas áreas do território ucraniano e desgastou uma economia russa avaliada em três biliões de dólares. No plano militar, as forças russas continuam sem conseguir tomar a totalidade da região do Donbass, onde as tropas de Kiev foram empurradas para uma linha de cidades fortificadas, e os avanços abrandaram ao longo do presente ano, controlando Moscovo pouco menos de um quinto do território ucraniano. Depois de acusações mútuas de violação de cessar-fogos unilaterais, o presidente norte-americano anunciou um cessar-fogo de três dias, apoiado tanto pelo Kremlin como por Kiev, tendo as duas partes acordado igualmente a troca de mil prisioneiros.
“Gostaria que isso parasse. A Rússia e a Ucrânia – é a pior coisa desde a Segunda Guerra Mundial em termos de vidas. Vinte e cinco mil jovens soldados todos os meses. É uma loucura”, declarou Trump a jornalistas em Washington, manifestando o desejo de ver “uma grande extensão” do cessar-fogo. Também o presidente do Conselho Europeu, António Costa, manifestou na semana passada a convicção de que existem “potenciais” para a União Europeia negociar com a Rússia e debater o futuro da arquitectura de segurança do continente. Líderes europeus defendem, contudo, que a Rússia deve ser derrotada na Ucrânia, retratando Putin como um criminoso de guerra e autocrata que poderia eventualmente atacar um Estado-membro da NATO se lhe fosse permitida a vitória no conflito — acusações que Moscovo rejeita como absurdas. Quanto ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, Putin afirmou que um encontro apenas será possível após a conclusão de um acordo de paz duradouro.


