Viktor Orbán posicionou a Hungria como um centro europeu para os fabricantes chineses de veículos eléctricos, ignorando as tarifas impostas pela União Europeia. Contudo, o seu sucessor político, Péter Magyar, aparenta não estar tão inclinado a inverter essa política de forma radical.
Na conferência de imprensa decorrida na segunda-feira, após uma vitória esmagadora contra Orbán, Magyar elogiou a China, afirmando que é “um dos países mais importantes, grandes e fortes do mundo”. “Estou muito contente por viajar até Pequim, e estamos muito felizes por receber líderes chineses aqui na Hungria”, acrescentou. Magyar frisou que irá “rever” os investimentos chineses no país, especialmente no sector dos veículos eléctricos, mas “não com a intenção de os encerrar ou impedir”.
Nos últimos anos, a Hungria tem mostrado grande desejo de atrair os investimentos da China, com a BYD a construir a sua primeira fábrica europeia de veículos eléctricos em Szeged em 2024, e grandes empresas como a CATL, NIO e EVE Energy a investirem fortemente no país. No entanto, essa política de portas abertas tem entrado em conflito com a pressão da UE para um maior escrutínio dos investimentos chineses, numa altura em que a China inunda a Europa com importações de baixo custo. Estima-se que o sector automóvel da UE possa enfrentar uma perda de até 600.000 postos de trabalho nesta década devido à crescente concorrência dos fabricantes chineses.
Magyar também terá que lidar com preocupações relativas ao alegado trabalho forçado que envolve trabalhadores chineses nas fábricas da BYD na Hungria, assim como com uma recente investigação da Comissão Europeia sobre subsídios injustos no mesmo local. Essas situações têm manchado a reputação da empresa e levantado questões sobre os investimentos de Pequim.
Na referida conferência de imprensa, o líder do partido Tisza não entrou em muitos detalhes, mas deixou claro que a Hungria irá alinhar a sua política de forma mais estreita com Bruxelas. “O objetivo é garantir que esses projectos cumpram as regulamentações ambientais da União Europeia e da Hungria, os procedimentos de saúde e as normas de segurança laboral, contribuindo assim para a performance da economia nacional”, reforçou Magyar.
Adicionalmente, manifestou a intenção de se distanciar da desconfiança que Orbán mantinha em relação à recente proposta da Comissão Europeia sobre o “Made in Europe”, que visa a China. O projecto de lei, neste momento em discussão entre os governos da UE e os eurodeputados, imporá condições mais rigorosas para o investimento directo estrangeiro superior a 100 milhões de euros em sectores como baterias, veículos eléctricos, painéis solares e matérias-primas críticas.
De acordo com o relatório, os investidores de países que detêm 40% da quota de mercado global em determinado sector deverão contratar pelo menos 50% de trabalhadores da UE. Outros requisitos poderão incluir limites à propriedade estrangeira abaixo de 49%, joint ventures com parceiros europeus e transferências de tecnologia. “O que não queremos — e não aceitaremos — é que empresas estrangeiras venham, recebam apoios significativos do Estado húngaro, empreguem muito poucos húngaros, gerem pouco ou nenhum valor acrescentado para a economia húngara e, ao mesmo tempo, ponham em risco a qualidade das terras, do ar e da água da Hungria”, realçou Magyar, sinalizando a sua intenção de alinhar as políticas de forma mais próxima de Bruxelas.


