Meio século de entrega ao povo de Timor-Leste e à defesa da língua portuguesa em tempos de perseguição encerrou-se nesta sexta-feira, com a morte, em Díli, do missionário jesuíta João Felgueiras, aos 105 anos.
A partida do sacerdote foi confirmada pela comunidade jesuíta na capital timorense, poucas semanas depois de o religioso ter completado 105 anos. Natural das Caldas das Taipas, no concelho de Guimarães, João de Vasconcelos Baptista Felgueiras ingressou na Companhia de Jesus em 1942, aos 21 anos, e foi ordenado sacerdote a 30 de julho de 1950, em Espanha, após estudos de Filosofia em Braga e de Teologia em Burgos. Antes de rumar ao Oriente, dedicou-se ao ensino e ao acompanhamento espiritual de jovens em Braga e em Lisboa, onde foi professor no Colégio de São João de Brito, e dirigiu, entre 1962 e 1967, o Colégio Apostólico da Imaculada Conceição, em Cernache.
A viragem decisiva da sua vida ocorreu a 22 de janeiro de 1971, data em que partiu para Timor-Leste. Aí colocou o essencial da sua missão ao serviço da promoção da língua portuguesa e do apoio à população ao longo da ocupação indonésia, período em que ensinar e falar português podia representar perseguição. Acompanhou de perto as vítimas do massacre de Santa Cruz, a 12 de novembro de 1991, e viria a fundar a Escola Amigos de Jesus, projecto que sintetiza a convicção de que a educação é um instrumento de liberdade e de transformação social.
O reconhecimento pela sua obra traduziu-se em sucessivas distinções. Foi condecorado em 2002 pelo então Presidente da República portuguesa Jorge Sampaio como Grande-Oficial da Ordem da Liberdade, distinguido pelo antigo chefe de Estado timorense Taur Matan Ruak com a Insígnia da Ordem de Timor-Leste e agraciado em 2022, por Marcelo Rebelo de Sousa, com a Grã-Cruz da Ordem de Camões. Em setembro de 2024, durante a visita a Díli, o Papa Francisco saudou-o publicamente no encontro com os membros da Companhia de Jesus. De acordo com a Agência ECCLESIA, a Província Portuguesa da Companhia de Jesus agradeceu «a vida e a entrega do P. João Felgueiras, que sempre manifestou um espírito de grande amor e união à sua Província de origem», deixando ainda uma palavra de proximidade e oração à comunidade jesuíta timorense e a todos os que acompanharam o sacerdote.
Em declarações ao Letzebuerg Hoje, o Presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta, recordou o missionário como uma «figura excepcional da nossa história contemporânea», cuja vida foi dedicada ao serviço do próximo, à educação e à construção da identidade nacional. O chefe de Estado sublinhou que, num tempo em que a língua portuguesa era proibida e a identidade cultural timorense estava ameaçada, o padre escolheu permanecer ao lado do povo, partilhando os seus sofrimentos e a sua resistência. Descrevendo-o como um «profeta da educação e da solidariedade» e evocando-o também como amigo de longa data e conselheiro, Ramos-Horta endereçou as suas condolências à Companhia de Jesus, à família em Portugal e às comunidades educativas fundadas pelo jesuíta, expressando o desejo de que o seu exemplo permaneça como referência para as futuras gerações timorenses.


