As ferramentas educativas destinadas a prevenir e combater a corrupção passaram a estar disponíveis em língua portuguesa, num passo que procura colocar ao alcance de milhões de jovens do espaço lusófono os instrumentos necessários para reforçar a integridade cívica desde os primeiros ciclos escolares. O lançamento decorreu na sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em Lisboa, e resultou da parceria entre o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e a organização lusófona, no âmbito da iniciativa GRACE — Recurso Global para a Educação e Empoderamento dos Jovens na área do combate à corrupção.
Desde 2025 que o projecto reforçou as acções preventivas, o que conduziu a uma atenção crescente ao papel da educação na prevenção do crime e da corrupção, segundo referiu a coordenadora da iniciativa, Bianca Kopp. «A corrupção é o cancro da sociedade. Precisamos que todos os jovens percebam por que a corrupção é prejudicial, quais são as suas consequências e por que todos devemos fazer parte dos esforços para a prevenir e combater», declarou. A abordagem do GRACE assenta em três pilares — educar, empoderar e conectar organismos e pessoas —, tendo sido lançadas traduções dirigidas a alunos de vários ciclos escolares e aos respectivos professores.
De acordo com o Jornal Tropical, a secretária-executiva da CPLP, Maria de Fátima Jardim, sublinhou que a cooperação entre a organização lusófona e o UNODC se tem vindo a consolidar ao longo dos anos e que a disponibilização dos materiais em português possui um significado especial para a comunidade, por permitir «uma aproximação entre sociedades e uma construção de respostas comuns para os desafios globais». Para a responsável, a prevenção da corrupção começa «não só nas instituições e mecanismos jurídicos, mas sobretudo na educação, na ética, na parte cívica», nomeadamente na escola, na universidade e na formação da cidadania participativa.
Numa mensagem em vídeo, a chefe da Secção de Corrupção e Crime Económico do UNODC, Brigitte Strobel-Shaw, recordou que a corrupção custa aos países milhares de milhões de dólares por ano, corrói a confiança pública, enfraquece as instituições e nega às pessoas oportunidades e justiça. Defendeu que preveni-la exige uma abordagem de toda a sociedade, iniciada cedo: quando as crianças e os jovens compreendem o seu impacto e adoptam valores como a justiça, a responsabilidade e o respeito pelo Estado de Direito, cria-se uma cultura de integridade capaz de resistir à corrupção a partir da base. Para a responsável, nos países da CPLP os jovens representam uma força poderosa de mudança, e a disponibilização das ferramentas em português vai além da própria tradução, ao abrir uma oportunidade de expansão do conhecimento a milhões de estudantes.
Também o Presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta — país que detém a presidência temporária da organização —, considerou, em mensagem vídeo, que a corrupção continua a ser um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento sustentável, e que colocar a educação no centro deste combate significa investir na consciência ética das novas gerações. Segundo o Índice de Percepção da Corrupção, divulgado em fevereiro e que classificou 182 países e territórios numa escala de zero a 100 quanto aos níveis percepcionados de corrupção no sector público, Cabo Verde (62) surge como a nação da CPLP com melhor classificação, seguida de Portugal (56), sendo estes os únicos dois membros acima dos 50 pontos; abaixo situam-se Timor-Leste (45), São Tomé e Príncipe (43), Brasil (35), Angola (32), Guiné-Bissau (21), Moçambique (21) e Guiné Equatorial (15). A CPLP, que assinala 30 anos a 17 de julho, é composta por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.


