Apesar dos rápidos avanços na robótica, a tão aguardada revolução dos robôs humanoides — comparável ao impacto do ChatGPT na inteligência artificial — poderá demorar vários anos a concretizar-se. Especialistas do setor alertam que limitações técnicas e escassez de dados continuam a travar a adoção em larga escala.
As conclusões foram debatidas no Boao Forum for Asia, realizado na província chinesa de Hainan, onde líderes da indústria identificaram desafios persistentes, tanto ao nível do hardware como do software.
Um dos principais entraves ao desenvolvimento dos robôs humanoides é a escassez de dados de treino. Ao contrário dos modelos de linguagem, que beneficiam de grandes volumes de texto disponíveis online, a robótica enfrenta dificuldades em gerar informação suficiente para treinar sistemas complexos.
Segundo o South China Morning Post, Shao Hao, cientista-chefe do laboratório de robótica da Vivo, explicou que os dados robóticos são «altamente multidimensionais», tornando o processo de aprendizagem mais exigente.
Até ao momento, a indústria acumulou apenas centenas de milhares de horas de dados, grande parte recolhida através de teleoperação humana. Em comparação, áreas como a condução autónoma geram milhões de horas de dados diariamente.
O chamado «momento ChatGPT» tornou-se uma referência no setor para descrever o ponto em que uma tecnologia ultrapassa barreiras críticas e se torna amplamente utilizável.
De acordo com a mesma fonte, esse salto na robótica só será possível quando surgirem métodos mais eficientes de recolha de dados. Shao Hao estima que esse avanço poderá demorar cerca de uma década.
Contudo, existem perspetivas mais otimistas. Wang Xiaogang, cofundador da SenseTime e responsável pela Ace Robotics, acredita que a evolução poderá ocorrer em apenas dois anos, graças a novas técnicas experimentais que prometem expandir rapidamente os volumes de dados disponíveis.
Entre as soluções em desenvolvimento está a capacidade de os robôs observarem e imitarem o comportamento humano em diferentes contextos reais. Este modelo requer sistemas de software mais avançados — descritos como «cérebros robóticos» — capazes de se adaptar a tarefas desconhecidas.
Conforme avançou o South China Morning Post, o objetivo é criar robôs que funcionem em diferentes plataformas físicas e que evoluam de forma autónoma à medida que os seus modelos são aperfeiçoados.
A China mantém-se na linha da frente da robótica humanoide, com empresas como a Unitree Robotics e a AgiBot a impulsionar o setor.
De acordo com projeções da Morgan Stanley, as vendas de robôs humanoides no país deverão mais do que duplicar este ano, atingindo cerca de 28 mil unidades.
Para além dos desafios técnicos, o impacto social da tecnologia está igualmente a gerar debate. A ex-primeira-ministra da Nova Zelândia, Jenny Shipley, alertou para a necessidade de refletir sobre questões éticas, incluindo a forma como os robôs humanoides representam figuras humanas.
Apesar do entusiasmo em torno da robótica humanoide, os especialistas são cautelosos quanto ao ritmo de evolução. A transformação do setor dependerá da capacidade de superar limitações fundamentais, sobretudo na recolha e utilização de dados.
Até lá, o «momento ChatGPT» dos robôs permanece no horizonte — promissor, mas ainda fora de alcance imediato.


