Um testemunho na primeira pessoa sobre os anos de guerrilha nas montanhas de Timor chega ao público a 31 de julho com o lançamento de «Se a terra pudesse falar – Memórias de um tempo – Timor». A sessão decorrerá no auditório da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa e será transmitida em directo através da página de Facebook da instituição — solução que abre a cerimónia a quem acompanha estas matérias a partir da diáspora, incluindo a comunidade lusófona radicada no Luxemburgo.
A apresentação da obra, da autoria de Luís Costa, ficará a cargo da professora Lúcia Soares.
O que o livro propõe é menos uma crónica militar do que um exercício de fixação de memória. Na sinopse, o autor declara escrever para perpetuar a resistência de um povo que se organizou contra a agressão indonésia e manteve viva, de armas na mão, a reivindicação do direito à autodeterminação. Presta homenagem à Fretilin pelo trabalho de politização das populações e pela organização da guerrilha. Mas não branqueia. Reconhece erros de militantes, e abusos cometidos por responsáveis menos conscientes e por elementos das Falintil em ambiente de euforia, sustentando ainda assim que a eficácia da acção do partido superou largamente esses reveses. Ao papel da Igreja Católica timorense na denúncia da ocupação dedica também palavras de louvor.
Há uma segunda intenção, explicitada pelo próprio: ajudar a comunidade timorense espalhada pelo mundo a manter e desenvolver a sua identidade cultural e histórica. É um objectivo que atravessa toda a obra e que dialoga directamente com a experiência de qualquer comunidade emigrada.
O manuscrito que agora chega às livrarias é, em rigor, a terceira tentativa. Os primeiros apontamentos arderam em Kasohan, em 1979. O segundo conjunto foi desfeito pelo próprio autor em Díli, antes de sair para Jacarta. Luís Costa admite por isso lacunas quanto a nomes de companheiros e a lugares por onde passou, e pede compreensão a quem com ele partilhou alegrias e sofrimento nesses anos.
Nascido a 13 de dezembro de 1945 em Fatu-Berliu, iniciou os estudos no Colégio de Soibada e prosseguiu o ensino secundário em Dare, frequentando depois cursos de Filosofia e Humanidades em Macau e Évora, com conclusão de Teologia em Leiria. Regressou a Timor em novembro de 1974 para trabalhar na missão de Ossú. Com a invasão de 1975, refugiou-se nas montanhas, onde permaneceu até abril de 1979; de volta a Díli, ensinou no Externato de São José e traduziu para tétum, em 1980, o Missal Romano. Em novembro de 1983 fixou-se em Portugal, participando activamente na divulgação da causa timorense e dedicando-se à investigação e ao ensino da língua e da cultura de Timor-Leste. Assina, entre outros títulos, o «Dicionário Tétum-Português» (2000), o «Guia de Conversação Português-Tétum» (2001), «Língua Tétum: Contributos para uma Gramática» (2015) e «Ué-Lenas: Lenda» (2016), tendo em preparação um «Dicionário Português-Tétum».


