Quase 59 por cento dos eleitores ficaram em casa. É a maior taxa de abstenção alguma vez registada em São Tomé e Príncipe — um mínimo histórico que pesa sobre um escrutínio, de resto, tranquilo e bem organizado. O dado consta da avaliação preliminar da Missão de Observação Eleitoral da União Europeia (MOE UE), apresentada numa conferência de imprensa, referente às eleições de 19 de julho.
A análise cobre todo o ciclo — o período pré-eleitoral, a votação e o apuramento —, observado nos vários distritos do país e na Região Autónoma do Príncipe. De acordo com o Jornal Tropical, a missão mobilizou 30 observadores oriundos de 15 Estados-Membros da UE e do Canadá, que no dia do voto passaram por 104 mesas, cobrindo 60 por cento das circunscrições.
O balanço logístico foi positivo. «Apesar da sua natureza temporária, as eleições foram organizadas de forma eficiente pela Comissão Eleitoral Nacional, tendo todo o material chegado atempadamente às mesas de voto», afirmou Sérgio Humberto, chefe dos observadores da MOE UE. O responsável sublinhou que a jornada decorreu «de forma tranquila e pacífica», com os procedimentos de votação amplamente respeitados e as medidas de integridade aplicadas — antes de deixar o reparo que domina o relatório: a abstenção que fixou o tal mínimo histórico de participação.
O contexto ajuda a explicar o resultado. Estas foram eleições sem precedentes: os dois principais candidatos representavam alas rivais do mesmo partido no poder, a Acção Democrática Independente (ADI). A disputa de liderança por resolver no seio da formação contaminou toda a competição e o ambiente político, agravada pela decisão dos restantes grandes partidos de não apresentarem candidatos próprios. Ainda assim, garante a missão, a campanha correu «de forma pacífica e festiva», no respeito pelas liberdades fundamentais e sem incidentes registados.
Nem tudo, porém, se passou nas ruas. Apesar dos recursos humanos e financeiros limitados, os meios de comunicação — públicos e privados — asseguraram uma cobertura adequada das actividades de campanha, com as emissoras públicas a apresentarem um tratamento equilibrado e a imprensa privada a noticiar num tom geralmente neutro. O ruído veio de outro lado. Rumores e informação enganosa, sobretudo a partir de contas não verificadas nas redes sociais, alimentaram um clima de incerteza em linha, palco de acusações pessoais e ataques verbais entre as duas alas da ADI.
A presença europeia não termina aqui. A convite das autoridades santomenses, a MOE UE está no arquipélago desde 14 de junho e permanecerá para acompanhar o resto do processo, com regresso previsto em setembro para observar as eleições legislativas, autárquicas e regionais. O relatório final, com recomendações às autoridades e ao público para escrutínios futuros, será divulgado no prazo de dois meses após a conclusão dos actos eleitorais.


