Com as eleições parlamentares à porta, a Hungria vive um dos períodos eleitorais mais acesos dos últimos anos. A polarização entre o actual primeiro-ministro Viktor Orbán e o seu opositor Péter Magyar atinge níveis alarmantes, a ponto de separar até mesmo famílias. Orbán, que tem alimentado o medo de uma guerra, tenta mobilizar o eleitorado, enquanto Magyar promete acabar com o que considera um “Estado-mafioso” sob a liderança de Orbán.
Na noite de quarta-feira, milhares de apoiantes reuniram-se em Sopron, uma cidade de 62.000 habitantes, onde seguravam bandeiras húngaras e desfrutavam do clima festivo. Contudo, a atmosfera fervilhava com a presença de manifestantes anti-Orbán, que expressavam a sua oposição com cartazes provocativos, como um em que aparecia Orbán a beijar Vladimir Putin. Bloggers e podcasters do círculo próximo ao Fidesz filmavam e entrevistavam os presentes, tentando confrontar os opositores.
Quando Orbán subiu ao palco sob gritos de apoio, afirmou que esta eleição era a mais importante da sua carreira, face à liderança de Magyar, que ultrapassa muitas vezes os 20 pontos percentuais nas sondagens. “Cada voto conta”, disse Orbán, apelando aos seus apoiantes que mobilizassem amigos e familiares. Ele tem mostrado um talento especial em desacreditar adversários enquanto cria um vínculo emocional com o seu público. Na sua retórica, referiu ainda a lealdade da cidade à Hungria, recordando que Sopron optou por ficar ao lado da Hungria após a Primeira Guerra Mundial.
O discurso focou também na política externa, onde Orbán comentou a guerra na Ucrânia, afirmando que a Hungria não começou o conflito, mas está a sofrer as suas consequências. “A Europa que criámos para a paz agora serve a guerra”, lamentou, reforçando a ideia de que a sua oposição, liderada por Magyar, é uma “marionete do governo ucraniano”.
Enquanto Orbán conquista corações em Sopron, outros húngaros como Zita Molnár, uma minoritária étnica da região da Transcarpática na Ucrânia, expressam apoio incondicional ao primeiro-ministro. “Não quero que a Hungria passe pelo que a Ucrânia está a viver”, afirmou. Na margem oposta, apoiantes de Magyar também se mobilizam, clamando por mudanças e denunciando o que consideram ser o estado corrupto do governo.
Em Sopronhorpács, devoluções de votos em 2022 indicam que o governo do Fidesz obteve 72% dos votos, mas o clima de tensão começa a afetar a comunidade. Conversas entre os habitantes revelam preocupações sobre a migração e a guerra, refletindo o medo de mudanças que muitos sentem sob o governo de Orbán.
Contudo, a juventude parece disposta a desafiar este cenário. Péter Magyar, que busca captar a confiança dos mais novos, abordou as preocupações sobre a falta de recursos no setor da saúde, criticando diretamente a gestão do governo atual. “Os hospitais carecem de papel higiénico e desinfetantes. É inaceitável”, retorquiu, chamando à luta contra a corrupção e referindo que “Hungria deve estar na UE ou permanecer como um Estado-mafioso.”
Com o aumento da participação da juventude, a retórica de Magyar ressoa entre aqueles que rejeitam a ideia de deixar o país e anseiam por uma nova ordem. “Este é um país lindo e queremos ficar”, expressou um jovem apoiador.
Em face de tão intensas divisões, a verdade é que o futuro da Hungria pode depender do resultado das eleições de domingo. László Szarka, geofísico, acredita que um triunfo de Orbán é uma vitória para não só a Hungria, mas para o mundo, enquanto o adolescente Zalán Vég clama por uma mudança de regime. A decisão está nas mãos dos eleitores.


