O Dia Nacional da China, celebrado hoje, 1 de Outubro, ganha outra dimensão quando se conhece o significado do dia que o antecede. Antes da festa que recorda a fundação da República Popular da China, o país dedica 30 de Setembro à memória dos seus mártires. Duas datas consecutivas, uma relação histórica profunda e, para quem observa a China a partir da Europa, uma oportunidade para perceber melhor um país com o qual o Luxemburgo e Portugal mantêm relações importantes.
A República Popular da China foi proclamada a 1 de Outubro de 1949. Desde então, a data tornou-se a principal celebração nacional chinesa, com cerimónias oficiais e diferentes iniciativas em todo o país. É também o início de um dos períodos festivos mais marcantes do calendário chinês, habitualmente conhecido como «Semana Dourada», associado a grandes deslocações internas, turismo, encontros familiares e consumo.
Mas há uma parte desta história menos conhecida na Europa. Ontem, 30 de Setembro, a China assinalou o Dia dos Mártires, instituído oficialmente em 2014. A data homenageia aqueles que são reconhecidos pelo Estado chinês como tendo sacrificado a vida pelo país, incluindo nas lutas revolucionárias e na sua defesa.
A escolha do calendário tem um forte simbolismo. Primeiro vem a homenagem; no dia seguinte, a celebração. O 30 de Setembro está ligado à memória e ao sacrifício, enquanto 1 de Outubro coloca no centro a fundação da República Popular e a identidade nacional construída a partir de 1949.
Um dos momentos mais simbólicos do Dia dos Mártires decorre em Pequim, junto do Monumento aos Heróis do Povo, na Praça Tiananmen. A cerimónia de deposição de flores representa uma dimensão da memória histórica chinesa que passa muitas vezes despercebida a quem conhece sobretudo as grandes celebrações do Dia Nacional.
É precisamente a proximidade das duas datas que ajuda a perceber o seu significado. Para compreender a importância que o 1 de Outubro assume na China, é útil conhecer também aquilo que o país recorda na véspera. História, memória e identidade nacional aparecem aqui estreitamente ligadas.
Para o Lëtzebuerg Hoje, esta leitura tem também uma dimensão europeia e lusófona. Conhecer a China para além dos indicadores económicos, das exportações ou das notícias internacionais é relevante num momento em que as relações entre chineses e europeus atravessam áreas tão diferentes como comércio, investimento, finanças, investigação, cultura e intercâmbio entre pessoas.
No Luxemburgo, essa proximidade é particularmente visível num país profundamente internacional e aberto às relações económicas externas. A presença de empresas, profissionais e cidadãos chineses, bem como os contactos estabelecidos ao longo dos anos entre os dois países, fazem com que acontecimentos importantes do calendário chinês tenham igualmente significado para uma parte da sociedade luxemburguesa.
Portugal ocupa também o seu próprio espaço nesta relação. Para os portugueses que vivem no Luxemburgo — e para empresários e profissionais lusófonos que trabalham num ambiente cada vez mais internacional — compreender determinadas referências históricas e culturais chinesas pode ser tão útil como conhecer os números de uma oportunidade de negócio.
Não significa ignorar diferenças. China e Europa têm histórias, sistemas políticos, prioridades e perspectivas distintas sobre várias matérias. Uma cooperação duradoura e benéfica para ambas as partes passa precisamente por reconhecer essas diferenças, conhecer melhor o interlocutor e procurar, onde existam, interesses comuns concretos.
Essa reciprocidade é essencial. Uma relação equilibrada não depende apenas de a Europa compreender melhor a China. Implica igualmente que a China conheça as realidades europeias e as particularidades de países como o Luxemburgo e Portugal, incluindo as suas empresas, comunidades, culturas e formas de trabalhar.
O Dia Nacional celebrado hoje pode, assim, ser visto para além da efeméride. O 1 de Outubro conta uma parte da China contemporânea; o 30 de Setembro ajuda a compreender outra. Juntas, as duas datas oferecem uma pequena janela para a forma como o país olha para a sua história e para os símbolos que continuam a marcar a sua identidade.
Num mundo em que China e Europa continuarão inevitavelmente a cruzar-se, conhecer melhor o outro não resolve todas as divergências. Mas cria melhores condições para conversar, negociar e cooperar. Para o Luxemburgo, para Portugal e para a China, esse conhecimento mútuo pode ser um ponto de partida para relações que produzam benefícios concretos dos dois lados.



