Há histórias que chegam a uma redacção completas, documentadas e prontas para serem contadas. E há outras que chegam aos pedaços. Esta é uma delas. Tem documentos, versões, perguntas ainda sem resposta e muitas pontas soltas. Mas tem, acima de tudo, um ser humano que dorme na rua.
O homem cuja história contamos pediu expressamente para permanecer anónimo e não autorizou qualquer gravação da conversa que tivemos com ele. Respeitamos ambas as decisões. O seu nome não acrescentaria nada de essencial a esta história. O que importa é a situação humana que encontrámos e as perguntas que ela levanta.
Sabemos que é cidadão português, que viveu e trabalhou durante vários anos no Luxemburgo e que está actualmente aposentado por invalidez. Segundo nos contou, tinha uma casa que acabou por transferir para a mulher e para os filhos. Entretanto, o casal separou-se e ele ficou sem casa. Desde o início deste Verão que vive sem um tecto permanente.
Não sabemos ainda tudo o que aconteceu. E seria irresponsável apresentar como factos aquilo que, nesta fase, conhecemos essencialmente através do seu testemunho e dos documentos que ainda conserva. Há questões familiares, patrimoniais, administrativas e financeiras que precisam de ser esclarecidas. Mas nenhuma dessas dúvidas altera aquilo que está diante dos nossos olhos: existe uma pessoa a viver numa tenda e a pedir ajuda para encontrar uma saída.
Há vários meses, segundo afirma, deixou também de receber a pensão. Terá tido uma morada declarada na zona da Gare, na cidade do Luxemburgo. Diz ter procurado repetidamente os serviços competentes e deslocado várias vezes ao Fonds National de Solidarité, sem até agora conseguir encontrar uma solução para a situação em que se encontra.
Também terá procurado respostas junto da Segurança Social e diz ter sido informado de que a espera por uma solução de alojamento é longa. É aqui que começam algumas das perguntas que precisam de resposta. O que aconteceu à pensão? Qual é actualmente a sua situação administrativa? A que prestações tem direito? Existem pedidos ou processos em curso? Há documentos em falta? E que solução de emergência existe para alguém que, dentro de poucos dias, poderá não ter sequer onde montar uma tenda?
Porque é numa tenda que este homem tem vivido. Foi-lhe oferecida e encontra-se instalada num espaço exterior nas traseiras da Santa Casa da Misericórdia. Não é uma casa, não é um quarto e não pode ser considerada uma solução. Mas tem sido o pouco que o separa de dormir completamente ao relento.
Até ao final desta semana terá de abandonar aquele espaço. Segundo as informações que nos foram transmitidas, a sua permanência ali não poderá continuar e, entretanto, vão começar as aulas de catequese. Não nos cabe apontar culpados sem conhecermos todas as circunstâncias. Cabe-nos, porém, fazer uma pergunta muito simples: para onde vai este homem depois?
Amanhã, o Lëtzebuerg Hoje tentará acompanhá-lo ao Fonds National de Solidarité. Com os documentos que ainda tem em mão, procuraremos perceber directamente junto dos serviços qual é a sua situação, se existe algum processo pendente, que direitos poderão assistir-lhe e, principalmente, que solução imediata poderá existir.
Talvez descubramos que faltam documentos. Talvez existam procedimentos que não foram concluídos. Talvez haja decisões familiares ou patrimoniais que tornem o caso muito mais complexo do que parece. Talvez existam respostas administrativas que este homem não compreendeu ou que, no estado de fragilidade em que se encontra, não conseguiu explicar-nos correctamente. Tudo isso terá de ser apurado antes de tirarmos conclusões.
Por isso, esta não é uma acusação contra uma instituição, contra os serviços públicos ou contra a família deste homem. É o início de uma tentativa de compreender como alguém que trabalhou durante anos no Luxemburgo acabou sem casa, sem receber há meses aquilo que identifica como a sua pensão e a viver provisoriamente numa tenda.
Há, contudo, uma realidade que não necessita de um processo administrativo para ser compreendida: existe um ser humano sem um lugar digno onde dormir.
É português, mas poderia ser luxemburguês, francês, cabo-verdiano, brasileiro ou de qualquer outra nacionalidade. Neste caso, o passaporte pouco importa. Importa que estamos perante uma pessoa que diz querer encontrar um tecto, perceber o que aconteceu aos seus rendimentos e recuperar condições mínimas para viver com dignidade.
O anonimato que pediu será respeitado. Não precisamos do seu rosto, da sua voz gravada ou do seu nome para contar esta história. Aliás, talvez a ausência de um nome ajude a perceber precisamente aquilo que está em causa: esta história não deveria ser importante por acontecer a uma determinada pessoa. Deveria ser importante porque pode acontecer a uma pessoa.
Não procuramos culpados antes de conhecer os factos. Procuramos respostas.
Amanhã começaremos por uma porta: a do Fonds National de Solidarité. Iremos com ele e com os documentos que ainda possui para tentar perceber o que aconteceu e, sobretudo, o que pode ser feito agora.
Depois das respostas dos serviços, haverá certamente mais para contar.
Esta história tem muitas pontas soltas. A dignidade de quem dorme na rua não deveria ser uma delas.



