Num passeio de barco em Fuzhou, o homem ao leme explicava em mandarim aquilo que íamos vendo nas margens. Depois, falava para o telemóvel. Nem um segundo mais tarde, uma voz feminina saía de uma pequena coluna, traduzindo as suas palavras para um inglês fluente. A conversa continuava, a embarcação avançava e a língua deixava de ser um obstáculo. Entre os vários momentos desta viagem à China, este ficou-me na memória pela simplicidade com que uma tecnologia sofisticada se tornava útil.

Regressava ao país dez anos depois da minha última visita, em 2016. Para quem ali viveu durante uma parte significativa da vida, havia uma expectativa particular: reencontrar lugares conhecidos e perceber até onde tinha chegado a transformação que já então era evidente. Esperava encontrar uma China moderna. Encontrei-a. Ainda assim, a dimensão da mudança surpreendeu-me.
Em 2016, o desenvolvimento já se via nas cidades, nas infra-estruturas e no ritmo da actividade económica. Uma década depois, a distância parece muito maior do que aquela que dez anos sugerem. Em Fuzhou, onde estive para acompanhar o Fórum de Cooperação dos Media da iniciativa «Uma Faixa, Uma Rota», organizado pelo Diário do Povo, essa diferença revelou-se sobretudo na forma como a tecnologia entrou nos gestos mais comuns.
É fácil acompanhar os avanços chineses através das notícias e das redes sociais. Vemos imagens de transportes modernos, aplicações digitais e novos equipamentos. Estar no terreno permite perceber outra dimensão: a facilidade com que essas soluções são utilizadas por quem vende numa loja, conduz um táxi, recebe um pagamento ou acompanha visitantes num passeio.

Foi esse o aspecto que mais me impressionou. Nos poucos dias que passei em Fuzhou, encontrei repetidamente tecnologia a simplificar a vida das pessoas. Não visitei hospitais nem escolas que me permitam avaliar directamente o que acontece na saúde ou na educação. Mas, nos pagamentos, nas deslocações e na comunicação, pude experimentar essa utilidade e observar como fazia parte da rotina de quem ali vive.
Os pagamentos são talvez o exemplo mais imediato. Já os referi nas reportagens anteriores, mas ajudam a explicar esta impressão. Através de aplicações como o WeChat ou o Alipay, basta ler um código QR ou apresentar o código do próprio telefone para concluir uma compra. Em muitas das situações que vivi, o telemóvel foi suficiente, sem necessidade de procurar moedas, notas ou cartões.
O dinheiro continua a existir. Cheguei a receber troco em notas que me pareceram quase novas, um pequeno contraste com a memória do papel-moeda muito manuseado que conhecera anos antes. É apenas uma observação de viagem, mas ilustra como até os pormenores mais banais despertam comparações quando regressamos a um país depois de tanto tempo.

Houve também um episódio que me permitiu apreciar o registo digital de uma transacção. Por desconhecimento meu, confirmei duas vezes um pagamento através de um código QR. Não me apercebi da duplicação, nem a pessoa que estava a receber, ocupada com outros clientes. Menos de cinco minutos depois, o valor pago a mais tinha sido devolvido, sem que eu tivesse apresentado qualquer reclamação.
Não sei que mecanismo desencadeou a devolução. Sei o que aconteceu comigo: cometi um erro e o dinheiro regressou rapidamente. Para quem está longe de casa, num ambiente comercial e linguístico diferente, essa resolução tem um valor muito concreto.
A possibilidade de acompanhar os movimentos digitais suscita questões sobre privacidade e utilização de dados. São questões legítimas, também presentes nos pagamentos electrónicos que fazemos na Europa. Neste caso, porém, o rasto da operação revelou-se útil. A experiência que trago é a de um sistema que me facilitou as compras e de um problema resolvido antes de eu próprio ter dado por ele.

Nas deslocações, vi a mesma capacidade de reduzir dificuldades. Colegas brasileiros com pouco domínio do inglês conseguiram chamar táxis, indicar os destinos e regressar ao hotel recorrendo às ferramentas disponíveis no telefone. A barreira linguística continuava a existir, mas já não os impedia de circular pela cidade e tratar do que precisavam.
Nas lojas, acontecia algo semelhante. Quando não era possível conversar em inglês, os próprios vendedores apresentavam uma aplicação de tradução. Falávamos para o telefone, esperávamos um ou dois segundos e a conversa prosseguia. Nas situações que acompanhei, a tradução foi suficientemente clara para nos entendermos, escolhermos produtos e fazermos perguntas.
O passeio de barco deu a esta experiência uma expressão particularmente feliz. O homem ao leme podia continuar a explicar a cidade na sua língua, enquanto nós ouvíamos a tradução em inglês. Não precisava de abdicar dos seus conhecimentos por não falar a língua dos visitantes. Nós não precisávamos de passar pelas margens sem compreender aquilo que ele tinha para contar.

É aí que encontro o principal significado desta viagem. O desenvolvimento ganha outra importância quando permite a alguém comunicar melhor, trabalhar com mais facilidade ou deslocar-se com maior autonomia. Em Fuzhou, foram esses pequenos resultados, repetidos ao longo dos dias, que deram substância à impressão de modernidade.
A própria cidade me obrigou a rever memórias. Já ali tinha estado quando vivia na China. Recordava uma Fuzhou de outra escala, muito distante da metrópole que agora encontrei. Não era uma pequena vila piscatória, embora a comparação surja quase espontaneamente perante a dimensão da mudança. Era uma cidade que, na minha memória, parecia incomparavelmente mais pequena.

Alguns dias numa cidade não permitem descrever toda a realidade chinesa. Permitem, contudo, observar, experimentar e confrontar ideias com situações concretas. O balanço que faço nasce desse contacto: encontrei soluções que funcionaram comigo e com outros participantes, utilizadas com naturalidade por pessoas para quem já fazem parte do quotidiano.
É também a partir daqui que olho para as relações com a Europa. A disponibilidade para a cooperação esteve no centro do fórum de Fuzhou. Transformá-la em resultados exige mais do que intervenções públicas: exige contactos, conhecimento mútuo e projectos em que as vantagens sejam claras para as partes envolvidas.
Para o Luxemburgo, vale a pena estudar estas experiências com atenção. A capacidade de comunicar entre línguas diferentes, facilitar a mobilidade e tornar os serviços mais simples tem interesse num país onde convivem tantas nacionalidades. As soluções observadas na China podem oferecer pontos de partida para colaboração, adaptação e aprendizagem, tendo em conta as necessidades e as regras europeias.

A Europa tem razões para conhecer de perto este desenvolvimento e procurar as áreas em que pode beneficiar dele. Cooperar implica avaliar tecnologias, discutir condições e construir relações de reciprocidade. Implica também reconhecer o mérito de soluções que já mostram utilidade e perceber se podem responder a problemas que enfrentamos deste lado.
No início de Dezembro, espero regressar à China para uma nova viagem, desta vez mais orientada para a vertente tecnológica. Será uma oportunidade para aprofundar o que agora apenas pude entrever, visitar projectos e fazer perguntas sobre o seu funcionamento.
De Fuzhou trago uma imagem muito concreta: um homem ao leme, a falar na sua língua, e um pequeno telefone a permitir que todos a bordo compreendessem a cidade que ele nos mostrava.



