Numa pequena tasca de noodles em Fuzhou, o menu era electrónico. O sistema lembrava os que usamos nas cadeias de comida rápida na Europa, mas ali estava numa casa de bairro. Tinha ido à China para acompanhar um fórum sobre cooperação entre órgãos de comunicação social. À hora de pedir o almoço, encontrei um dos exemplos mais simples de como a tecnologia passou a fazer parte do quotidiano.
As actividades começaram a 2 de Novembro e terminaram a 5. Para mim, a viagem começou no dia 1, com a partida do Luxemburgo, e acabou a 6, no regresso. Pelo meio, Frankfurt e Pequim, escalas tanto à ida como à volta. A abertura oficial do Fórum de Cooperação dos Meios de Comunicação Social da Faixa e Rota foi a 3 de Novembro, em Fuzhou, na província de Fujian. Estive na sala com os delegados estrangeiros. Segundo os números divulgados pelo China Daily, eram mais de 200, em representação de 182 órgãos de comunicação social e instituições de 100 países.

O encontro, organizado pelo Diário do Povo e pelo governo da província de Fujian, esteve à altura do que esperava. O programa incluiu uma exposição sobre os resultados da cooperação no âmbito da Faixa e Rota, a quarta reunião do conselho da rede de notícias da iniciativa e três encontros temáticos, dedicados à cooperação regional, ao intercâmbio entre meios de comunicação social da Ásia e ao desenvolvimento das civilizações da Rota da Seda. Alguns intervenientes defenderam que os jornalistas deviam ajudar a criar um clima de opinião favorável à iniciativa. O contacto entre redacções interessa-me pelo acesso que pode dar a pessoas, lugares e perspectivas que de outro modo nos escapariam. Cabe a cada redacção decidir o que merece ser contado e como o contar.
Por ter vivido na China durante quase duas décadas, esperava que houvesse mais visitas técnicas. Gostava de ter visto de perto como se desenvolve e se põe a funcionar alguma da tecnologia de que tanto se fala na Europa. Fica para a próxima viagem, já em Dezembro. Desta vez, como jornalista interessado na vida das pessoas, deu-me especial prazer ver como esse desenvolvimento se traduzia em gestos tão banais como encomendar uma refeição, fazer uma compra ou pagar a conta.
Em todos os restaurantes por onde passei encontrei menus electrónicos. Nas ruas, surpreendeu-me a variedade de produtos à venda nas máquinas automáticas. Com o telemóvel encomendava-se de tudo um pouco, com entregas à porta, algumas feitas por veículos autónomos. Nos estabelecimentos maiores, o cartão bancário ainda era uma opção. Nos pequenos, o habitual era pagar pelo telemóvel. Também vi pagamentos por reconhecimento facial. Pagar em dinheiro era possível, embora por vezes fosse preciso insistir.
Li um artigo de opinião sobre uma afirmação de uma porta-voz dos Estados Unidos acerca das casas de banho na China. Fez-me pensar no que acabara de ver. Nesta viagem, foi-me mais fácil encontrar uma casa de banho pública, moderna e gratuita do que em muitas das minhas passagens pelos Estados Unidos ou pela Europa. A imagem das antigas instalações onde era preciso pôr-se de cócoras pouco tinha a ver com o que encontrei. Mesmo em lugares mais remotos, encontrei casas de banho com sanitas. Muitas das que usei tinham assentos aquecidos e sistemas automáticos de desinfecção.
A China que conheci nos anos 80 e 90 era mais reservada no contacto com o exterior. Tive o privilégio de acompanhar no terreno, entre 1997 e 2014, parte da transformação que se seguiu. Vistos de hoje, parecem-me ter sido anos decisivos para o crescimento económico e tecnológico que agora se vê nas ruas. Em Fuzhou, fiquei com a impressão de um país moderno, confiante e disposto a trabalhar com parceiros muito diferentes entre si, sem exigir à partida que todos partilhem a mesma visão. Até onde vai essa abertura é algo que se mede nas condições e nos resultados de cada projecto.

Hoje vivo no Luxemburgo e estou convencido de que a Europa só tem a ganhar se souber aproveitar o desenvolvimento tecnológico chinês para resolver problemas que também são nossos. Em Fuzhou, o que mais me impressionou foi a facilidade com que soluções que ainda discutimos como possibilidades já entraram na rotina de um comerciante ou de quem encomenda o jantar. Essa experiência de pôr a tecnologia a funcionar no dia-a-dia, à escala de uma cidade, merece ser estudada de perto.
Na inteligência artificial, por exemplo, há espaço para equipas europeias e chinesas trabalharem sobre problemas concretos, da gestão de entregas à redução do consumo de energia na indústria. A cooperação pode começar com um projecto-piloto, com objectivos definidos de comum acordo e resultados que ambas as partes possam medir. Para uma pequena empresa europeia, trabalhar com quem já ensaiou uma solução em condições reais pode poupar meses de tentativa e erro. Para o parceiro chinês, é uma forma de perceber como essa solução funciona num mercado com outras regras, outras infra-estruturas e outros hábitos.
No Luxemburgo, vejo também margem para procurar pontos de encontro no sector espacial. Um exemplo seria juntar equipas para explorar a utilização de dados de satélite na agricultura ou na gestão de cheias. São aplicações em que o interesse público é fácil de perceber e em que cada parceiro pode trazer experiência própria. A Europa deve sentar-se à mesa com uma ideia clara do que quer desenvolver, do que está disposta a partilhar e das condições que considera indispensáveis. Quanto mais concretos forem os projectos, mais fácil será avaliar o que cada lado ganha com eles.
Entre a China que conheci nos anos 80 e 90 e aquela que agora encontrei em Fuzhou, vi mudanças que, no início, poucos teriam imaginado àquela velocidade. É por isso que me preocupa a facilidade com que, na Europa, adiamos decisões sobre onde e com quem trabalhar. Enquanto discutimos se devemos aproximar-nos, outros estão a testar, a corrigir e a aplicar essas tecnologias. Quando os nossos dirigentes decidirem avançar, o que mais nos poderá fazer falta será a experiência que poderíamos ter começado a ganhar entretanto.



