Há dias em que viajar significa descobrir coisas novas. E há outros em que uma simples caminhada nos transporta para uma vida passada. Hoje, em Fuzhou, aconteceu um pouco das duas coisas. Entre filmes premiados, compras, sabores familiares e tecnologia, foi um dia de reencontros com uma China que continua a surpreender.
A manhã foi inteiramente dedicada à exibição de quatro produções audiovisuais premiadas no âmbito dos Silk Road Global News Awards.
Foram apresentados Lighting Up Ali: An Engineer’s Diary e Journey of Warriors, episódio um, ambos do Discovery Channel; In the Book of My Dreams, da News.com; e Life at the Yellow River Delta, da National Geographic.

Quatro histórias inspiradoras que, através de diferentes perspectivas, levantaram questões importantes sobre a preservação da cultura, a memória colectiva e a defesa do ambiente.
Para quem trabalha na comunicação social, foi uma oportunidade para reflectir sobre o poder das imagens e a importância de contar histórias que não se esgotam na actualidade de um único dia.
Terminada a programação oficial, a tarde ficou reservada para compras, passeios e algum descanso nas margens do rio Min, que atravessa Fuzhou.
Mas foi no centro comercial junto ao hotel que aconteceu uma das experiências mais curiosas deste dia.

Bastou entrar para regressarem memórias de uma vida passada.
Os cheiros da comida chinesa, os aromas dos petiscos preparados nas bancas, o movimento das pessoas e aquele barulho tão característico dos espaços comerciais chineses. Tudo parecia estranhamente familiar.
E depois havia as vendedoras!
Quem já viveu esta realidade sabe que as vendedoras chinesas têm uma capacidade extraordinária para nos fazer sentir as pessoas mais bonitas do mundo.
Em cantonense, uma mulher bonita é uma leng loi e um homem bonito é um leng zai. Em mandarim, as expressões equivalentes são mei nü e shuai ge.
E não é preciso ser particularmente bonito para receber um destes elogios. Basta passar diante de uma loja e mostrar algum interesse pelas montras!
É uma forma de chamar os clientes, naturalmente, mas também uma daquelas pequenas características do comércio chinês que tornam a experiência tão divertida.

E se os sons e os cheiros despertaram memórias, a comida tratou de completar a viagem ao passado.
Uma enorme variedade de pratos, petiscos e especialidades chinesas que nos fazem recordar sabores de outros tempos. Alguns aromas são tão familiares que quase conseguimos identificar os pratos antes sequer de os vermos.
Mas, no meio de tanta gastronomia chinesa, surgiu uma surpresa particularmente portuguesa.
Os nossos pastéis de nata!
Sim, os tão portugueses pastéis de nata, que há décadas conquistaram o mercado chinês, sobretudo depois de se popularizarem em Macau.
A versão de inspiração portuguesa que se tornou famosa em Macau ganhou particular notoriedade a partir de 1989 e acabou por conquistar consumidores muito para além daquele território.
E, como acontece frequentemente na China, não bastou adoptar a receita. Foi preciso levá-la a outra dimensão.

Aqui encontrei uma versão de pastel de nata com nada menos do que sessenta centímetros!
Sessenta centímetros de uma especialidade que, em Portugal, estamos habituados a encontrar em pequenas unidades individuais.
É impossível não sorrir perante esta interpretação gigantesca de um dos doces mais conhecidos da gastronomia portuguesa.
Mas as surpresas do centro comercial não ficaram pela comida.
Uma miríade de lojas vendia praticamente tudo o que se possa imaginar. Roupa, acessórios, produtos para o quotidiano e uma quantidade impressionante de equipamentos tecnológicos.
Carros da Xiaomi, telemóveis e todo o tipo de electrónica que, na Europa, muitas vezes apenas vemos em vídeos de apresentações ou em filmes.
Aqui está tudo à mão de quem quiser conhecer, experimentar ou comprar.

É uma das imagens mais marcantes da China actual: a convivência entre tradições comerciais antigas e uma modernidade tecnológica que parece avançar a uma velocidade difícil de acompanhar.
De um lado, as vendedoras que continuam a chamar os clientes com os tradicionais elogios. Do outro, automóveis eléctricos e equipamentos electrónicos que parecem chegados directamente do futuro.
E pelo meio, claro, um pastel de nata de sessenta centímetros!
A tarde terminou com algum descanso junto ao rio Min, aproveitando um momento mais tranquilo depois de vários dias de viagens, encontros e actividades internacionais.
Fuzhou continua a revelar-se uma cidade de contrastes, onde a tradição e a modernidade convivem de forma surpreendente.
Hoje, a viagem levou-me do cinema internacional aos sabores de uma vida passada, das memórias do comércio chinês à tecnologia mais recente.
E, inesperadamente, trouxe também um pedacinho de Portugal, embora numa versão consideravelmente maior do que aquela a que estamos habituados.
Afinal, até os pastéis de nata parecem crescer quando chegam à China!



