Está assegurada a deslocação de uma equipa de saúde que vai dar consultas de especialidade, totalmente gratuitas, nos dois concelhos de São Nicolau. A confirmação do apoio das Câmara Municipal da Ribeira Brava e da Câmara Municipal do Tarrafal de São Nicolau — que garantem alojamento e alimentação aos profissionais — desbloqueia uma maior abrangência da missão de outubro do projecto Bata Branca, nascido em 2018 do incómodo de cabo-verdianos radicados no Luxemburgo perante quem adoece nas ilhas mais isoladas. O objectivo é simples: chegar a quem não tem meios para pagar o sector privado nem tempo para as intermináveis listas de espera do público.
O modelo assenta na boa vontade, com médicos e enfermeiros a ceder dias de férias e a sua experiência sem cobrar um cêntimo, e o dinheiro angariado não paga honorários — cobre apenas transporte, alimentação e estadia. Esta segundo missão decorre entre 3 e 10 de outubro, com as consultas marcadas de 5 a 9. Uma actividade solidária rendeu cerca de dois mil euros, a que se juntou o contributo da Associação dos Veteranos do Norte, contando-se ainda entre os parceiros o Ministério da Saúde de Cabo Verde, o Banco Caboverdiano de Negócios, a Photo Gira e as duas autarquias da ilha. O núcleo que organiza tudo é pequeno: cinco pessoas, três no Luxemburgo e duas em Cabo Verde. «Se tivermos sorte na vida, temos que ajudar», resume o mentor do projecto, Jailson Melício, em entrevista ao Letzebuerg Hoje.
A primeira missão ficou na memória da ilha do Maio. Ali, em 2018, o pneumologista José Luís Spencer e a analista clínica Natalina Spencer atenderam 104 crianças numa só semana, na delegacia de saúde local, sobretudo com doenças de pele, anemia e problemas respiratórios típicos do pós-chuvas. A intenção de prosseguir por outras ilhas ficou suspensa pela pandemia. Regressa agora com um alcance bem maior, cobrindo saúde infantil, saúde da mulher, do idoso e o controlo de doenças crónicas; a equipa desta nova iniciativa reúne cerca de sete especialistas — de pediatria e ortopedia a ginecologia, nutrição e medicina dentária —, faltando ainda assegurar um cardiologista. Fica o apelo a um especialista da área que queira doar algum do seu tempo livre.
Chegar lá não é barato. Os profissionais partem de São Vicente e, sem ligação aérea directa, têm de passar pela ilha do Sal, o que faz disparar a factura das passagens. As ilhas escolhidas — Santo Antão, São Nicolau, Boa Vista, Maio e Brava — são as mais remotas e as que ficam mais longe de um hospital com todas as valências. Por isso o grupo faz questão de vincar que não é uma associação, mas um punhado de cidadãos a construir credibilidade a cada missão, e que nenhum cêntimo dos donativos remunera quem organiza: vai por inteiro para a logística de quem trata os doentes.
O apelo à generosidade estende-se a toda a diáspora, incluindo a comunidade cabo-verdiana no Luxemburgo, a quem basta partilhar, divulgar ou doar o que puder.



