Uma narrativa centrada em relações contemporâneas e em vozes de mulheres negras queer garante a São Tomé e Príncipe um lugar na corrida ao Prémio Novos Autores do Kugoma 2026. O projecto chama-se One Course Meal, afasta-se das representações habituais de trauma e chegou ao FilmLab Moçambique pela mão de Jéssica Lima, a única cineasta são-tomense entre os candidatos. É um lugar conquistado com histórias fora do comum. E coroa anos de trabalho a dar ecrã ao que raramente o tem.
Nascida em Lisboa, filha de pais são-tomenses, passou a maior parte da infância em São Tomé e Príncipe. Foi aí que despontou o gosto pelas artes — e o sentimento, que confessa, de estar “fora do lugar”. O cinema entrou cedo. Os filmes de Charlie Chaplin foram a primeira referência e, diante deles, decidiu o rumo: “É isso que quero fazer quando crescer.” Mais tarde, as novelas brasileiras alimentaram o desejo de contar histórias, que a levaria a formar-se em teatro e cinema na East 15 Acting School, no Reino Unido.
O trabalho reparte-se por teatro, representação, escrita e realização. Interpretou a Sra. Soames em Our Town, de Thornton Wilder, e assinou a curta-metragem Meninas Negras São Mulheres Também como actriz, guionista e realizadora. O ponto de viragem chegou em 2022, com Chama-me Maria, documentário sobre a violência contra as mulheres e o feminicídio em São Tomé e Príncipe, que segue Maria de Lurdes, vítima de abusos do marido. “Infelizmente, é um filme que fala de uma problemática que é a violência contra a mulher”, explicou a realizadora, que dedicou a obra “a todas as Marias, todas as mulheres vítimas dos seus companheiros”. A curta valeu-lhe o prémio de Melhor Curta-Metragem no São Tomé Fest Film e uma Menção Especial no Porto Femme International Film Festival. Antes, passara pelo São Tomé Film Lab, em 2021; depois, pela 5.ª edição do Ateliê Mutamba, em Luanda, apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Na disputa estão também os realizadores Grace Ribeiro, de Cabo Verde, e Denilson Nzala. O júri da categoria PALOP reúne Emília Wojciechowska, Gabi Ueno e António Maxlhaieie; o júri moçambicano junta Natércia Chicane, Xavier Bila e Omar Faquirá. A gala de premiação, de entrada gratuita, distinguirá ainda as categorias técnicas dos Prémios Maxfilm Creative — melhor realizador, actor, actriz, fotografia e director de caracterização. Segundo o Jornal Tropical, o Kugoma 2026 integrou pela primeira vez o FilmLab Moçambique e decorreu com acesso livre em diversos espaços, do CCFM ao Museu Mafalala. “O mundo seria um pouco chato se fôssemos todos iguais”, resume Jéssica Lima.



