A ideia de uma Europa unilateralmente refém da China em tecnologias estratégicas perde solidez quando se inverte o ângulo de análise: também Pequim continua a depender de empresas europeias em domínios decisivos, da litografia de semicondutores à aviação civil, num equilíbrio de vulnerabilidades cruzadas que ajuda a redesenhar o jogo de forças entre os dois blocos. Embora cada vez mais limitadas, essas dependências não desapareceram, e a sua existência ganha relevo num momento em que a rivalidade comercial entre Pequim e o Ocidente se intensifica.
Segundo a Euronews, a auto-suficiência tecnológica foi colocada no centro da estratégia industrial chinesa com o 15.º Plano Quinquenal, apresentado em março e projectado até 2030. Ainda assim, em sectores como os semicondutores, a tecnologia aeroespacial, os produtos farmacêuticos, os chips automóveis, a robótica e a computação quântica, a indústria europeia continua a fornecer componentes essenciais à China. A questão de saber se estas dependências conferem à Europa uma verdadeira margem de manobra divide os especialistas. A maioria mostra-se céptica, sublinhando que o monopólio chinês sobre as terras raras — indispensáveis às tecnologias verdes e à indústria de defesa europeias — constitui uma arma de retaliação muito mais poderosa. «A China tem realmente um ponto de estrangulamento no que toca aos minerais, mas nós não temos um ponto equivalente, o que é muito forte», declarou à Euronews Tobias Gehrke, especialista do Conselho Europeu de Relações Externas.
No domínio dos semicondutores, a Europa dispõe de um trunfo invulgar: a ASML, empresa holandesa que atingiu em 2026 a maior capitalização bolsista alguma vez registada por uma companhia europeia, acima dos 630 mil milhões de euros. Detém um quase-monopólio nas máquinas de litografia por ultravioleta extremo (EUV), determinantes para o fabrico dos chips avançados usados em inteligência artificial e veículos eléctricos, e cerca de 90% do mercado das máquinas de ultravioleta profundo (DUV). Essa dependência já foi explorada por Washington e Haia, que restringiram as vendas a Pequim. A China avança depressa para recuperar terreno — passou a exigir que metade dos equipamentos da nova capacidade de produção tenha origem nacional —, mas, como observou à Euronews o analista Sam Goodman, autor de um relatório publicado em maio para o Martens Centre, mesmo com a meta de produzir chips sem máquinas da ASML até 2028, continuará dependente da empresa «para aprender».
A aviação civil ilustra a mesma lógica de mão dupla. O C919 da Comac, resposta chinesa aos aparelhos da Boeing e da Airbus, assenta numa cadeia de abastecimento fortemente europeia, com a francesa Safran a produzir o motor, a alemã Liebherr Aerospace a fornecer o sistema de pressurização da cabina e a italiana Avio Aero a fabricar o invólucro do motor. «Sem a participação destas empresas, a China não teria um programa de aviação civil», afirmou Goodman, lembrando que a certificação aeronáutica exige um saber técnico moroso de adquirir. Ainda assim, qualquer tentativa europeia de transformar esta cadeia numa arma teria custos para os próprios fornecedores, que retiram lucros substanciais do mercado chinês — onde a Airbus mantém mais de 2.200 aparelhos em serviço e perto de 55% de quota.
Na farmacêutica, a Europa preserva a dianteira nas patentes: de acordo com Goodman, em 2024 as empresas de Itália, Alemanha e França somavam, em conjunto, o dobro das patentes farmacêuticas atribuídas à China, e fabricantes europeus asseguravam 51% do mercado mundial de vacinas. A distância, porém, encurta-se a um ritmo notável. Citando dados da associação francesa do sector, a Euronews assinala que o investimento chinês em investigação e desenvolvimento cresceu 16,2% ao ano entre 2020 e 2024 — o dobro do europeu —, o que permitiu à China responder por mais de um terço das novas moléculas geradas pela investigação farmacêutica mundial. Padrão idêntico atravessa os chips automóveis, com a BYD e a Chery a recorrerem a fornecedores como a Infineon, a NXP e a STMicroelectronics, e a robótica, onde os principais fabricantes chineses de humanóides ocultam as suas cadeias de fornecimento precisamente porque dependem de componentes europeus, da sueca Ewellix à alemã Rexroth.
O retrato que emerge é, assim, o de uma interdependência densa, em que cada lado segura pontos de pressão sobre o outro e em que a balança pode inclinar-se em direcções opostas consoante a temperatura geopolítica. A Europa lidera em nichos de alto valor acrescentado, mas depende de regiões terceiras — incluindo a própria China — para etapas como o encapsulamento e o teste de chips, fragilidade exposta no recente diferendo em torno da Nexperia. A capacidade chinesa de caminhar para a auto-suficiência sem prescindir, no imediato, da cooperação europeia continuará a moldar um equilíbrio instável, em que a retaliação de um lado raramente deixaria o outro incólume.


