O adiamento das eleições na Guiné-Bissau poderá prolongar a crise política e comprometer o regresso à normalidade constitucional, num cenário marcado pela suspensão das actividades partidárias e pela ausência de diálogo entre as autoridades de transição e os principais actores políticos. O analista Cabi Sanhá considera que um novo adiamento não seria surpreendente, uma vez que, apesar da definição de uma nova data eleitoral após o golpe de Estado de Novembro, não foram tomadas medidas concretas para garantir a realização do escrutínio.
Segundo declarações de Cabi Sanhá à Deutsche Welle (DW), a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que deveria desempenhar um papel de mediação, permanece praticamente inactiva perante o impasse. O comentador recorda que a Constituição da Guiné-Bissau condena expressamente os golpes de Estado e qualquer tentativa de subversão da ordem constitucional. Até ao momento, sustenta, nem o Governo de transição nem o Comando Militar apresentaram iniciativas capazes de ultrapassar a crise. Sanhá admite ainda que a falta de avanços na preparação das eleições poderá estar relacionada não apenas com dificuldades logísticas, mas também com interesses e estratégias políticas internas.
A possibilidade de realizar eleições autárquicas no próximo ano também suscita reservas. Embora reconheça a necessidade desse escrutínio, Cabi Sanhá defende que a prioridade deverá ser dada às eleições legislativas e presidenciais, consideradas fundamentais para restabelecer a ordem constitucional. O analista alerta que a manutenção da suspensão das actividades políticas impede os partidos de organizarem congressos, escolherem dirigentes e legitimarem candidatos. Sem essas condições, considera, torna-se difícil assegurar eleições livres, justas e verdadeiramente representativas.
A reabertura do espaço político surge, assim, como uma condição indispensável para ultrapassar o bloqueio institucional na Guiné-Bissau. De acordo com a análise divulgada pela DW, a continuação das restrições à actividade partidária poderá dificultar a preparação das candidaturas e aumentar a incerteza quanto ao calendário eleitoral. Para Cabi Sanhá, qualquer processo eleitoral credível exige primeiro a criação de condições políticas que permitam a participação efectiva dos partidos e o funcionamento regular das instituições democráticas.



