Dar voz a milhares de lusófonos dispersos pelo Grão-Ducado e convencê-los de que valem mais unidos do que isolados: é este o fio que atravessa o podcast «Tá In Kasa», um espaço de conversa em português que recolhe histórias de vida no Luxemburgo.
Por detrás do projecto está Ricardo Kaju, de seu nome Ricardo de Carvalho Lima, formado em comunicação social em São Paulo. Franco-brasileiro, passou pela TVTEM, estação afiliada da Globo, onde começou como estagiário antes de chegar à produção. O gosto por ouvir os outros vem de longe. Em 2010, ainda no interior paulista, montava uma câmara na sala de casa e entrevistava figuras locais num programa a que chamou «Tá In Kasa».
A vida trouxe-o para a Europa, onde vive há quase quinze anos. Reside em França e trabalha no Luxemburgo, como tantos que cruzam a fronteira todos os dias. Depois da pandemia, entrou na Rádio Latina e assinou o programa «País Tropical» — locução, personagens, imitações, um registo que aprecia. Durou cerca de um ano. Quando saiu, percebeu que a internet lhe devolvia aquilo que fazia na sala de casa e relançou o «Tá In Kasa» em formato de podcast. Acompanha-o há cerca de cinco anos.
No podcast, interessa-lhe a vida. As histórias. Já sentou à sua frente empresários e microempresários, gente com nome feito, mas também a empregada doméstica, a dona de casa, o cozinheiro, o empregado de mesa — quem luta por um lugar no país. «Desde o que trabalha na cozinha até ao empresário com uma história para contar», resume. Ao início, pensou falar apenas com a comunidade brasileira. Bastou-lhe olhar em redor para perceber que o universo era outro, bem maior.
O diagnóstico que faz da comunidade lusófona é franco: falta união. «Ainda não nos conhecemos», admite, atribuindo o afastamento a um velho hábito de cada um remar sozinho. A solução, defende, não passa por dominar seja o que for. «Não é para dominar, é para integrar», insiste. O objectivo é que a comunidade se orgulhe de si própria e ganhe uma voz — sempre com respeito pela terra que a acolhe.
É aqui que o seu percurso se cruza com o deste jornal. Em conversa com o Letzebuerg Hoje, sublinhou que a meta não é fazer da massa lusófona um problema aos olhos da sociedade luxemburguesa, mas antes que o país olhe para ela com respeito. Integrar, não impor. E integrar passa, antes de tudo, pela língua. Aprender francês ou alemão, defende, abre portas no mercado de trabalho e evita que se fique preso ao mesmo lugar.
Fala com conhecimento de causa. Quando chegou, viu-se naquilo a que chama «analfabeto oral»: entendia o que se passava à sua volta, mas não conseguia responder. Descreve esse tempo como uma «prisão sem muros». O conselho que daí retira é directo — sair do isolamento, fazer amigos, ir para a escola, provar da cultura local sem apagar as raízes. Manter o fado e o carnaval, sim; mas também comer, falar e sentir o Luxemburgo.
A quem chega agora — e chegam milhares todos os anos, brasileiros, portugueses, cabo-verdianos — deixa um aviso e um incentivo. Desconfiar de quem só sabe desencorajar. Precaver-se contra as burlas que apanharam tanta gente, no Luxemburgo como noutros países. E, acima de tudo, confiar no próprio instinto. «Acredite em si mesmo», repete, «porque se não acreditar, nada do que quer fazer vai para a frente.»
Para já, o «Tá In Kasa» vive online no Youtube e no Instagram, o que lhe permite falar com gente espalhada pelo mundo. O sonho, esse, é outro: levá-lo para um estúdio físico, sentar os convidados frente a frente e captar a emoção ao vivo. Olhos nos olhos. Como deve ser uma boa conversa.



