Um prato humilde de galinha frita sobre arroz dourado, durante décadas confinado às ruelas e às casas de pasto dos bairros mais pobres, acaba de ser elevado a emblema da identidade Macaense. A primeira edição do prémio «Sabor de Ouro» do arroz mouro fechou com uma cerimónia no Salão do Carmo, na Taipa, transformando aquilo que era comida de conforto num movimento cultural e gastronómico à escala da cidade.

Conhecido em cantonês como Mō-lō Gāi Faahn (嚤囉雞飯) e, em português, como galinha de mouro ou arroz mouro, o prato carrega uma história de séculos. Tudo começou na Península Ibérica onde os mouros introduziram em Portugal o arroz, o açafrão, o cominho e as técnicas de pasta de amêndoa, durante a ocupação da região no século VIII. Muito mais tarde, as rotas marítimas portuguesas levaram esse perfil de especiarias norte-africanas e europeias até Macau, em plena era dos Descobrimentos. As cozinhas macaenses fizeram o resto: juntaram o coco do Sudeste Asiático, a curcuma e a fritura rápida cantonense. O resultado? Uma base de arroz aromático, dourado pela curcuma, coroada por coxas de frango estaladiças, passas e um molho espesso, perfumado e levemente picante.
A competição, organizada pela Associação da Indústria de Restauração de Macau com o apoio do Fundo de Desenvolvimento Industrial e Comercial do Governo, apostou numa herança trilingue — chinês, inglês e português — para mostrar como a história da diáspora sobrevive num único prato.
O interesse do público superou as expectativas. Segundo os dados divulgados pela associação, a iniciativa gerou mais de 12,2 milhões de interacções em linha e reuniu 382.285 votos durante o período de votação, em junho. Inscreveram-se 189 estabelecimentos, o que obrigou o júri a percorrer becos escondidos e tascas de bairro, e não apenas os grandes casinos-resort. De acordo com o presidente da associação, Lei Iam Leong, a campanha fez subir 30% as vendas do prato em toda a cidade. Vários restauradores relataram a chegada de turistas — da China continental e do estrangeiro — atraídos especificamente pela promoção.
Dos 189 concorrentes, 40 casas de bairro chegaram ao pódio, distribuídas de forma equilibrada por quatro categorias. Dez estabelecimentos arrecadaram o galardão principal, o «Sabor de Ouro», que distinguiu o equilíbrio gastronómico e a qualidade de operação. Outros dez receberam o prémio de sabor tradicional, reservado a quem mantém vivas as receitas macaenses de várias décadas. A inovação teve o seu lugar, com dez vencedores premiados pelas apresentações modernas e pelas actualizações de fusão. Os restantes dez lugares couberam ao prémio de popularidade, para os favoritos que mais envolvimento geraram nas plataformas digitais.
O grande trunfo da campanha, porém, foi outro: a estreia do «Molo» (嚤囉仔), uma mascote original. Desenhada para cruzar a estética tradicional portuguesa com um traço de banda desenhada moderno, a figura funciona como ponte visual para a dupla identidade da cidade. Doze restaurantes já a integraram nas montras, nas ementas e na decoração interior. O objectivo é claro — e ambicioso: descentralizar o turismo, afastando os visitantes dos mega-resorts do Cotai e conduzindo-os aos bairros históricos, às casas de família.
A receita do êxito passou por casar o antigo com o novo. Sob o mote «Molo leva-te numa viagem por Macau», os organizadores lançaram campanhas que ligam o mundo digital ao presencial, em aplicações chinesas como o Xiaohongshu e o Douyin, com desafios de influenciadores e etiquetas próprias que convidavam à partilha de fotografias e de opiniões sobre o prato. Criadores de conteúdos de viagens e gastronomia de vários pontos do mundo divulgaram vídeos, inscrevendo este clássico macaense no vocabulário corrente do turismo.
O apetite não fica por aqui. A organização já deixou pistas sobre um futuro «universo de mascotes gastronómicas», com personagens dedicadas a outros pratos icónicos, como a galinha à africana e o arroz de marisco. A meta de fundo mantém-se: consolidar Macau como Cidade Criativa da Gastronomia da UNESCO.


