Cresceu quase 6% num só ano, mas continua a assentar em alicerces frágeis. O Produto Interno Bruto real da Guiné-Bissau avançou 5,8% em 2025, empurrado por uma campanha vigorosa do caju e por preços à porta da exploração que reforçaram os rendimentos rurais e o consumo privado. Serviços e construção deram uma ajuda. Os ganhos, contudo, mantêm-se estreitos — a economia depende quase por inteiro da exportação de castanha de caju em bruto.
A inflação caiu de forma abrupta, para 0,9%, um alívio momentâneo para as famílias num quadro de incerteza política. As contas públicas também respiraram. O défice orçamental estreitou para 6,5% do PIB — ainda assim acima da meta —, fruto de cortes no investimento e de despesa contida. A receita fiscal subiu ligeiramente, mas permanece a mais baixa da União Económica e Monetária da África Ocidental (UEMOA), nos 8,5% do PIB. A dívida pública recuou para 75,6% do PIB, sustentada por um crescimento nominal mais forte e por uma estratégia prudente de endividamento concessional, embora continue a exceder o tecto fixado pela UEMOA.
No plano externo, a melhoria foi modesta: volumes de exportação mais altos e termos de troca favoráveis apertaram o défice da balança corrente, mas o caju continuou a dominar as vendas ao exterior. O sistema financeiro é o ponto mais vulnerável. Em junho de 2025, os créditos em incumprimento ultrapassavam os 22%. É este o retrato traçado pela Actualização Económica de 2026 sobre a Guiné-Bissau, um documento do Banco Mundial distribuído pela agência AllAfrica, que examina a evolução macroeconómica recente e as reformas estruturais necessárias para libertar um crescimento assente na produtividade.
A perspectiva, essa, escureceu. Os acontecimentos políticos de novembro de 2025 e o alastrar do conflito no Médio Oriente pesam sobre a retoma, e o crescimento deverá travar para 4,8% em 2026. O impacto do conflito chega por duas vias: o encarecimento das importações de combustível e de alimentos — cada uma representa cerca de 30% do total — e a subida dos custos de frete, que comprime as margens das exportações de caju. As estimativas apontam para menos 0,3 pontos percentuais de crescimento em 2026, mais 2 pontos de inflação e um alargamento de 1,6 pontos no défice da balança corrente. A curto prazo, segundo o Banco Mundial, importa proteger as famílias vulneráveis sem comprometer a sustentabilidade macroeconómica. Mais além, o cenário aponta para uma estabilização próxima dos 5%, na condição de uma normalização política gradual, e para uma pobreza extrema a descer para 37,8% em 2028 — um número refém da volatilidade dos preços dos alimentos e dos combustíveis, que castiga sobretudo as famílias rurais. Os riscos pendem para o lado negativo: instabilidade prolongada atrasaria reformas e esfriaria o empenho dos doadores, ao passo que preços globais mais altos pressionariam a inflação, a posição externa e as finanças públicas.
Há um paradoxo no cerne da economia bissau-guineense: investe-se mais e produz-se menos. Com base no Inquérito às Empresas de 2025 do Banco Mundial, a análise revela um sector privado formal pequeno, maioritariamente nacional e concentrado em micro e pequenas empresas, com uma indústria transformadora quase residual. As empresas são jovens — mais de metade tem menos de dez anos —, reflexo de anos de instabilidade e de acesso limitado ao financiamento. E surge aqui o dado mais desconcertante. A fatia de empresas a investir em activos fixos subiu de 45,1% em 2006 para 61,2% em 2025, mas o crescimento médio real anual das vendas caiu de 13,4% para 3,4%. Pior: a produtividade do trabalho passou de +6,2% em 2006 para -6,8% em 2025, sinal de uma criação de emprego de «baixa qualidade», em que se contratam mais trabalhadores sem ganhos equivalentes na produção.
Os principais obstáculos mudaram de natureza. Deixaram de ser sobretudo de infra-estrutura para se tornarem estruturais e institucionais. A electricidade deixou de ser um travão de peso para as empresas formais após a interligação hidroeléctrica da OMVG; no seu lugar despontaram as taxas fiscais, o acesso ao crédito e a incerteza institucional. O financiamento ao sector privado continua escasso e penaliza em especial as pequenas empresas, as lideradas por mulheres e as viradas para o mercado interno. As médias e grandes empresas apontam cada vez mais os tribunais, as alfândegas e a imprevisibilidade regulatória como entraves de fundo.
O caminho para inverter esta tendência passa por um pacote de reformas coordenado e centrado nas empresas, capaz de destravar os ganhos de produtividade que o crescimento, até aqui, não trouxe. A Actualização Económica da Primavera de 2026 elenca as prioridades. Alargar a base tributária e simplificar o cumprimento das obrigações, com mais declaração digital e um regime simplificado para as pequenas e médias empresas. Facilitar o acesso ao financiamento, pondo a funcionar registos de garantias, reforçando os sistemas de informação de crédito e desenhando linhas de crédito dirigidas às PME e às empresas lideradas por mulheres. Dar previsibilidade às instituições, modernizando as alfândegas através de um balcão único electrónico alinhado com as normas da CEDEAO. Consolidar os ganhos em infra-estrutura, garantindo a fiabilidade energética e uma melhor gestão do serviço público de energia. E fechar a lacuna de conectividade digital, revendo a regulação das telecomunicações e instalando a rede nacional de fibra óptica.


