Um apelo à coragem, ao conhecimento histórico e à preparação estratégica perante um mundo em ruptura esteve no centro das comemorações nacionais do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, este ano realizadas em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira. A mensagem, dirigida a um país que se diz a viver sob uma «cortina de medo», sublinhou a necessidade de Portugal voltar a olhar para a terra a partir do mar e de recusar tanto as ilusões como a negação dos factos, num tempo de profundas transformações internacionais. O discurso oficial coube a Miguel Monjardino, presidente da Comissão Organizadora, que recordou a grandeza, a universalidade e a modernidade da obra de Luís Vaz de Camões como ponto de partida para uma reflexão sobre o futuro da comunidade política portuguesa.
A celebração de Camões serviu de fio condutor a uma evocação da viagem que, no final do Inverno de 1570 e dezassete anos depois de ter partido para o Oriente, trouxe o poeta de regresso a Lisboa a bordo da nau Santa Clara. Depois de deixar a ilha de Santa Helena, a embarcação passou entre as Flores e o Corvo, rumou à Graciosa e à ponta da Serreta, na Terceira, e ancorou na baía de Angra, onde o poeta desembarcou no Cais da Alfândega antes de subir à Rua Direita. Em junho desse ano chegaria pobre, só e doente à Ribeira das Naus, trazendo consigo o manuscrito de «Os Lusíadas», descrito como um tesouro mais valioso do que todas as especiarias que entraram no Tejo. A escolha de Angra do Heroísmo não foi casual: pensada já no século XV para ser uma cidade transatlântica, acolheu em 1492 o primeiro hospital dos Açores, foi durante séculos ponto de convergência das rotas de regresso da Ásia, de África e das Américas, e o seu centro histórico foi o primeiro em Portugal a ser classificado como Património Mundial pela UNESCO. No fundo da baía, os vestígios de naufrágios que constituem o primeiro e maior parque arqueológico aquático nacional foram apontados como prova de que um país que negligencia o seu património cultural constrói sempre mal o seu futuro.
As celebrações decorreram no ano em que os Açores e a Madeira assinalam meio século de Autonomia, uma aspiração antiga de arquipélagos durante muito tempo negligenciados por um país centralizado em Lisboa e tornada possível por abril de 1974. Foi neste contexto que o discurso recuperou a memória de figuras como Sidónio Bettencourt, jornalista e radialista que durante décadas uniu as ilhas através do programa «Inter-Ilhas», na Antena 1 – Açores, para defender que nenhuma ilha pode ficar esquecida e que este será um século marítimo. A reflexão estendeu-se depois ao plano internacional, com o aviso de que o longo ciclo histórico iniciado em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial, chegou ao fim, dando lugar a uma «Grande Ruptura» e à substituição de um mundo multilateral por outro mais hierárquico, complexo e fragmentado. Perante esta mudança, foram identificadas três respostas possíveis — a invocação do poder e da força, a defesa do multilateralismo e a constituição de uma nova coligação de potências médias —, todas elas obrigando Portugal a fazer escolhas estratégicas.
Até 2030, defendeu Miguel Monjardino, o país terá de cumprir três tarefas: reconhecer que o conhecimento, a experiência e uma estratégia nacional pensada valem mais do que a intuição e a rapidez; admitir a existência de um problema cognitivo na percepção dos factos, agravado pela abundância de informação boa e má; e desenvolver a capacidade de compreender atempadamente as transformações em curso nas sociedades, na ciência, nas linhas de comunicação e no poder militar. Só assim, sustentou, será possível contribuir para a reinvenção da NATO e do seu pilar europeu, participar activamente na União Europeia e diversificar as relações externas portuguesas. Para ilustrar o que está em jogo, o discurso recorreu aos surfistas Hugo Vau e Joana Andrade, que nas ondas gigantes da Nazaré demonstraram que a coragem é inseparável do treino, da preparação meticulosa e de uma boa avaliação do risco. Recordando que Portugal é uma nação com quase nove séculos de história e um papel sempre significativo nas comunicações transatlânticas, a intervenção terminou com um aviso e uma promessa dirigidos às «heroínas e heróis do mar»: o amanhã não está longe de mais.


