O acesso à Internet deixou de ser o principal obstáculo à inclusão digital. A verdadeira fronteira está agora noutro lado — na forma como cada pessoa usa a rede e na capacidade de dela retirar benefícios concretos.
Praticamente ninguém fica hoje de fora da ligação. Apenas 0,87% da população nunca utilizou a Internet em 2025, um número que confirma o esvaziamento da velha questão do acesso. É esta a leitura central de um novo estudo encomendado pelo Ministério da Digitalização ao Luxembourg Institute of Socio-Economic Research (LISER), intitulado «Inclusão digital. Uma análise da situação em 2025». O trabalho assenta nos dados do inquérito comunitário sobre a utilização das tecnologias da informação e da comunicação, conduzido pelo Statec, e dá continuidade às análises já realizadas em 2022, 2023 e 2024. Disponível desde já em linha, é uma das 249 iniciativas previstas no segundo Plano nacional de inclusão digital.
Com a ligação generalizada, o problema mudou de natureza. Já não se trata de estar ou não ligado, mas de saber para quê. Nem todos os usos valem o mesmo. Uma coisa é ligar-se para passar o tempo; outra, bem diferente, é recorrer ao digital para tratar de assuntos administrativos, adquirir competências ou aceder a oportunidades de trabalho e de formação. É aqui que se abre o fosso.
O estudo mantém a divisão em três perfis, estável desde 2022: os «fracos utilizadores» representam 29% da população, os «utilizadores intermédios» 39% e os «grandes utilizadores» 32%. O que mais distingue estes grupos? As habilitações. Quem tem menos estudos surge sobre-representado entre os fracos utilizadores e fica para trás em quase todos os usos, enquanto as pessoas mais qualificadas dominam a franja dos grandes utilizadores e recorrem, com muito maior probabilidade, às utilizações de maior valor acrescentado — a pesquisa de informação, as diligências administrativas ou a participação cívica.
A idade pesa igualmente. Os residentes com 50 ou mais anos concentram-se entre os utilizadores menos activos, ao passo que a faixa dos 30 aos 49 forma o núcleo dos grandes utilizadores. Também os hábitos variam consoante a geração: os mais novos preferem as redes sociais e as aplicações de mensagens; os mais velhos procuram sobretudo informação ou ferramentas mais tradicionais, como o correio electrónico. As diferenças entre homens e mulheres, essas, mantêm-se reduzidas.
Há um fio que liga tudo isto. Quanto maior a competência digital, maiores os benefícios — económicos, sociais e práticos. Os utilizadores mais habilitados são, sistematicamente, os que mais partido tiram da rede. Mas nem todas as formas de aprender produzem os mesmos resultados. O factor mais decisivo é a autonomia, ou seja, a capacidade de cada um se formar sozinho e de resolver por si as dificuldades que vão surgindo. Logo a seguir surgem as formações pagas, particularmente eficazes nos ganhos económicos, como a maior eficiência no trabalho. A ajuda de familiares, amigos ou colegas reforça sobretudo o capital social — manter o contacto com as pessoas mais próximas. Quanto às formações gratuitas oferecidas por organismos e programas públicos, os efeitos são mais limitados e valem, acima de tudo, pela criação de novos laços.
A partir deste diagnóstico, a análise deixa várias recomendações. Propõe programas de formação diferenciados por nível — principiante, intermédio e avançado —, com prioridade para os públicos menos qualificados e mais idosos. Sugere reforçar as competências de maior valor, com destaque para as informacionais (procurar, filtrar e avaliar informação) e para a resolução de problemas. Aconselha ainda a valorizar as formações orientadas para benefícios económicos, a melhorar a eficácia das que são gratuitas e a apostar em formatos híbridos. E defende um acompanhamento que ultrapasse a família e os amigos, com o alargamento dos espaços comunitários de apoio informático.
Boa parte destas propostas já ganhou forma. O segundo Plano de acção nacional de inclusão digital 2026-2030, adoptado pelo Conselho de Governo em 16 de janeiro de 2026, prevê precisamente programas de formação ajustados a cada nível de competência, dirigidos em primeiro lugar às pessoas com menos estudos e aos mais velhos, incluindo um dispositivo de mediação intergeracional baptizado «seniores para seniores». O reforço das competências informacionais e de resolução de problemas, apontado como determinante, foi integrado no quadro de referência DigComp 3.0.
O peso da autoformação, um dos pontos mais salientados, traduz-se em ferramentas de aprendizagem autónoma: plataformas em linha, tutoriais e módulos interactivos pensados tanto para formadores como para o público em geral. O plano procura também valorizar as formações com fins profissionais, sobretudo para quem procura emprego, e tornar mais eficazes as ofertas gratuitas das associações e dos organismos públicos. Fica ainda a garantia de uma alternativa para quem não consegue, ou não quer, depender apenas do digital — guichés físicos, apoio humano de proximidade e um estudo de viabilidade sobre um serviço nacional de mediação digital. A parceria com o LISER mantém-se, para medir ao longo do tempo o efeito destas medidas junto de quem está mais exposto à exclusão.


