Mais de uma centena de mortes foram já registadas em consequência da epidemia de Ébola que atinge o leste da República Democrática do Congo, menos de um mês depois de as autoridades terem declarado o surto, num balanço que se agrava à medida que os serviços de saúde intensificam os esforços de contenção. Desde a declaração oficial, a 15 de Maio, foram confirmados 550 casos, com 101 mortes e 19 recuperações, segundo o mais recente relatório de situação. O surto é provocado pela rara estirpe Bundibugyo, para a qual não existe vacina nem tratamento aprovados, ao contrário do vírus Zaire, responsável pela maioria dos dezasseis surtos anteriores no país.
A maioria dos casos concentra-se na província de Ituri, que representa mais de 90% do total, havendo igualmente registos no Kivu do Norte e no Kivu do Sul, com a epidemia a alastrar ao Uganda. Os números reais poderão ser superiores, dado que a confirmação do surto ocorreu com semanas de atraso e a taxa de rastreio de contactos, embora em melhoria, se situa ainda nos 64%. De acordo com a agência Associated Press, a subida acentuada do número de casos resulta em parte do reforço da capacidade de diagnóstico, que permitiu processar uma acumulação de amostras que aguardavam análise.
As medidas sanitárias destinadas a travar a propagação têm perturbado o quotidiano em Bunia, capital movimentada de Ituri, onde, conforme relatou a Associated Press, os mototaxistas passaram a estar proibidos de transportar mais do que um passageiro de cada vez. Persistem, contudo, a desconfiança e o desrespeito pelas normas de saúde em várias zonas da província, e sobreviventes do surto de 2018 — o segundo mais grave da história — alertam que a repetição de erros do passado poderá traduzir-se num elevado número de mortes evitáveis. Os profissionais na linha da frente, frequentemente mal pagos e sem descanso, têm sido alvo de ataques por parte de populações revoltadas e enfrentam dificuldades de acesso a comunidades isoladas por confrontos com grupos armados, alguns deles ligados a redes estrangeiras ou ao autodenominado Estado Islâmico.
O conflito que há anos afecta a região oriental do Congo tem comprometido as actividades de vigilância e aumentado o risco de transmissão não detectada, segundo a Organização Mundial de Saúde. Com cerca de um milhão de deslocados em Ituri, o rastreio de contactos torna-se uma tarefa árdua, agravada pela fuga constante das populações, por florestas densas, estradas degradadas e aldeias remotas que podem demorar dias a alcançar, e ainda pela mobilidade de milhares de mineiros informais nesta região rica em recursos minerais. A OMS avalia actualmente como baixo o risco de propagação ao resto de África e ao mundo, tendo o director-geral, Tedros Adhanom Ghebreyesus, sublinhado que os doentes de Ébola podem recuperar se receberem o apoio médico necessário.


