A mobilização de uma resposta humanitária de emergência tornou-se prioridade na Venezuela depois de dois sismos de grande magnitude terem semeado destruição no centro-norte do país, com um balanço provisório que já ultrapassa as duas centenas de mortos e os milhares de feridos. Em informação enviada ao Letzebuerg Hoje, a organização humanitária Handicap International dá conta de que as suas equipas, já no terreno, se organizam para dar resposta a uma situação que se agrava a cada hora.
O abalo principal foi sentido ao início da noite de 24 de junho, quando duas violentas sacudidelas, de magnitude 7,2 e 7,5, atingiram o país com menos de um minuto de intervalo, seguidas por mais de três dezenas de réplicas. O segundo sismo é o mais potente registado em mais de um século. Localizado a oeste de Caracas e a pouca profundidade, o epicentro amplificou consideravelmente o efeito destruidor dos tremores sobre as zonas habitadas.
As consequências são dramáticas. Os balanços provisórios apontam já para 235 mortos e mais de 4.300 feridos, números que deverão subir à medida que as equipas de socorro vasculham os escombros das áreas devastadas, sobretudo no estado de La Guaira e na aglomeração de Caracas. Mais de 56.000 pessoas estão dadas como desaparecidas. Os prejuízos materiais são igualmente vastos: mais de uma centena de edifícios ruíram e infra-estruturas como o aeroporto internacional de Caracas ficaram gravemente danificadas. Com muitas pessoas ainda a procurar familiares debaixo dos destroços, a presidente interina Delcy Rodríguez declarou o estado de emergência.
A catástrofe abate-se sobre um país que atravessa há anos uma grave crise humanitária, política e socioeconómica. Segundo a informação transmitida pela Handicap International ao Letzebuerg Hoje, antes do desastre já cerca de 7,9 milhões de pessoas — um quarto da população — necessitavam de ajuda, e mais de 94 % dos agregados não dispunham de rendimento suficiente para assegurar as suas necessidades essenciais. Os dois sismos vêm dificultar ainda mais o acesso a serviços básicos como os cuidados de saúde ou o abastecimento de água e de electricidade, tornando indispensável uma ajuda de emergência para fazer face aos próximos dias.
Presente na Venezuela há vários anos, a organização realizou uma avaliação rápida das necessidades, com particular incidência na reabilitação. Em sismos desta dimensão, muitas das pessoas feridas precisam, com urgência, de cuidados de reabilitação para recuperarem de lesões graves, fracturas e eventuais amputações, sendo também elevadas as necessidades de apoio psicológico para lidar com o trauma. Entre as restantes prioridades, indica ao Letzebuerg Hoje, contam-se o acesso a material médico, a água potável e a alimentos, a disponibilização de abrigos temporários e a distribuição de produtos de higiene.
Em emergências deste tipo, as pessoas com deficiência, as crianças e os idosos enfrentam dificuldades acrescidas para circular por ruas obstruídas de gravilha, encontrar abrigo seguro ou obter água e comida — razão pela qual a Handicap International sublinha que não podem ser esquecidos na resposta humanitária. As equipas preparam uma intervenção de reabilitação física e funcional de urgência, crucial nas primeiras horas para acompanhar os feridos e evitar incapacidades a longo prazo. A organização mostra-se ainda disponível para reorientar parte das suas operações para a saúde mental e o apoio psicossocial, bem como para a distribuição de bens de primeira necessidade, como cobertores, sabão e escovas de dentes, junto das famílias que tudo perderam. O objectivo, afirma, é assegurar uma resposta urgente e inclusiva, com atenção especial às populações mais vulneráveis.


