A multiplicação de formações partidárias sem identidade ideológica definida, aliada à instrumentalização da imprensa, está a corroer a estabilidade institucional e democrática da Guiné-Bissau. O alerta parte do bastonário da Ordem dos Jornalistas guineense, António Nhaga, em análise à conjuntura política do país divulgada pela Deutsche Welle. Na sua leitura, muitos dos grupos que hoje se autodenominam partidos pouco têm em comum com os modelos tradicionais de representação.
À excepção das formações históricas, sustenta Nhaga, boa parte dos núcleos surgidos nos últimos anos funciona como estrutura ao serviço de interesses particulares, propensa a alianças com facções militares que alimentam a instabilidade e as tentativas de golpe. É nesse enquadramento que insere o debate em torno do autoproclamado Partido Popular Guineense, projecto atribuído ao actual primeiro-ministro de transição, Ilídio Vieira Té, e em torno do qual vários quadros partidários manifestaram intenção de abandonar as respectivas siglas. «Tudo isto acontece num contexto onde está na moda assaltar o Estado e assumir o poder», resume.
A fragmentação chegou também aos partidos tradicionais. O PRS enfrenta divisões internas repartidas por três a quatro facções, enquanto o PAIGC lida com ameaças de cisão que o bastonário considera fomentadas a partir do exterior. O mesmo desgaste atingiu o sector da comunicação social: parte dos profissionais transformou-se em «bocas de aluguer», limitada a defender agendas de pequenos grupos. Num ambiente cada vez mais polarizado, quem procura escrutinar o poder é rotulado de imediato como militante do PAIGC ou da oposição, e o contraditório independente é penalizado — algo que Nhaga descreve como «estratégia intencional que alimenta a actual balbúrdia política».
Perante o que classifica como «erosão democrática», o bastonário defende uma frente comum entre os jornalistas guineenses. O objectivo passa por devolver à imprensa o estatuto de quarto poder independente, reforçar a solidariedade profissional e ressuscitar o contraditório no espaço público. Só assim, argumenta, será possível repor a legalidade democrática num país onde a captura das instituições se tornou rotina.


