Um comportamento raro e potencialmente cultural documentado em chimpanzés selvagens no Parque Nacional do Boé, na Guiné-Bissau, está a dar novos contributos para a compreensão das origens da comunicação complexa e do uso de ferramentas ao longo da evolução humana. Trata-se da chamada arremessada acumulativa de pedras — uma prática em que os chimpanzés lançam pedras repetidamente contra árvores específicas, acumulando-as ao longo do tempo nos mesmos locais, numa forma de comportamento que os investigadores classificam como muito provavelmente cultural.
As gravações em vídeo obtidas no terreno mostram que são sobretudo machos adultos a executar este comportamento, acompanhado de vocalizações de longa distância conhecidas como pant hoots e, por vezes, de golpes ritmados nas raízes tabulares das árvores — prática denominada buttress drumming. De acordo com os investigadores, estas características inserem a arremessada acumulativa no repertório das exibições masculinas, podendo constituir uma variação culturalmente transmitida de um comportamento já comum entre os chimpanzés. A distribuição geograficamente limitada do fenómeno — até à data registado em apenas quatro grupos de chimpanzés na África Ocidental — e a constatação de que a simples disponibilidade de rochas e árvores não determina a presença de um local de arremessada reforçam o seu carácter cultural.
Uma equipa de investigadores regressou recentemente ao Boé para aprofundar o estudo do contexto social e ecológico desta prática. A partir da aldeia de Béli, onde uma ONG neerlandesa mantém um campo em colaboração com as comunidades locais, os cientistas percorreram 22 quilómetros de savana para instalar armadilhas fotográficas e dispositivos de gravação áudio junto dos locais de arremessada. Como os chimpanzés da região não estão habituados à presença humana, as observações directas a pé são impossíveis, pelo que os dados comportamentais — incluindo a idade e o sexo dos lançadores e a eventual reacção de outros chimpanzés nas imediações — foram recolhidos exclusivamente por meios tecnológicos. Os investigadores confirmaram ainda que a maioria dos locais identificados numa expedição anterior, em 2017, continua a ser utilizada activamente, sugerindo que os chimpanzés podem frequentar estes espaços durante mais de uma década.
O valor científico da investigação é, porém, acompanhado de uma preocupação crescente com o futuro dos chimpanzés guineenses. O seu habitat está ameaçado pela expansão das indústrias extractivas, em especial a mineração industrial, que acarreta destruição de habitat e poluição com consequências severas para a fauna selvagem e as comunidades locais. Segundo a imprensa guineense, a ausência de regulamentação ambiental efectiva, agravada pela instabilidade política crónica no país, torna a situação particularmente vulnerável. Para os investigadores, dar visibilidade a comportamentos culturais como a arremessada acumulativa de pedras é também uma forma de apoiar a conservação dos chimpanzés e preservar um património cultural primata que, uma vez perdido, não poderá ser recuperado.


