Entre pentes, pregos, tesouras e terços, uma série de objectos do quotidiano ocupa um lugar central nas práticas de protecção espiritual durante a gravidez em Timor-Leste. Transmitidas oralmente de geração em geração, estas tradições representam, para muitas mulheres timorenses, muito mais do que superstição: são uma forma de ligação aos antepassados, de afirmação identitária e de cuidado possível numa época em que o acesso a médicos era raro ou inexistente, segundo a comunicação social de Timor-Leste.
Regina Correia, de 63 anos, seguiu rigorosamente os rituais ensinados pelos seus antepassados. Usava sempre um pente no cabelo — em ocasiões formais, guardava-o na mala; à noite, dormia com ele debaixo da almofada. A crença era de que o objecto ajudava a garantir um parto seguro. Originalmente feitos de corno de búfalo, os pentes foram sendo acompanhados pela tesoura e pelo prego, considerados temíveis pelos espíritos malignos. Após o parto, era comum as mulheres evitarem lavar o cabelo durante 40 dias e recorrerem a panos quentes sobre a barriga e as costas para expulsar o frio e eliminar restos de sangue. “Os nossos avós não sabiam ler nem escrever, por isso transmitiam estas crenças para proteger as grávidas”, explica Regina, que vê nestas práticas uma herança preciosa e um modo de cuidar com os meios disponíveis.
Nem todas as mulheres vivem esta tradição da mesma forma. Benvinda Alves utilizou todos os objectos no início da gravidez, mas acabou por ficar apenas com o terço, símbolo do sacrifício de Cristo. “A tesoura serve para cortar cabelo, e o prego serve para unir coisas. Respeito a tradição”, afirma, acrescentando que quer transmitir às novas gerações as lições positivas, mas com pensamento crítico: “Não podemos viver como no passado.” Francisca Soares partilha desta visão e defende que as práticas ancestrais devem coexistir com uma perspectiva moderna. Diana Branco, por sua vez, rejeita os rituais por completo, convicta de que a verdadeira protecção advém da fé em Deus e não de objectos materiais.
O antropólogo Alessandro Boarccaech destaca a importância cultural e emocional destes objectos, que vão muito além da função prática: proporcionam conforto às grávidas e reforçam os laços com a tradição. A integração do terço católico ilustra, segundo o investigador, a influência da cosmovisão cristã sobre as crenças ancestrais timorenses — uma tradição viva e em constante recomposição. Contudo, Boarccaech alerta para os casos em que o medo do sobrenatural pode afastar as mulheres dos cuidados médicos essenciais. Uma médica-geral, que preferiu não se identificar, corrobora esta preocupação: apesar da crença cultural, não existem benefícios clínicos associados ao uso destes objectos, sendo indispensável garantir o acesso a cuidados adequados durante a gravidez. “O mais importante é que as mulheres se sintam cuidadas e informadas”, conclui a médica, sublinhando que fortalecer a educação em saúde pode ser o caminho para um equilíbrio saudável entre as práticas ancestrais e a medicina contemporânea.


