Uma obra de memória, intervenção e consciência crítica protagonizou, em Lisboa, um dos encontros literários mais marcantes do mês de Abril. A apresentação em Portugal do livro O Meu Nome é Joaquim — Fragmentos de Memórias, do embaixador Rafael Branco, reuniu escritores, poetas e pensadores numa sessão que rapidamente transcendeu os limites do evento literário para se converter num espaço de reflexão colectiva sobre o passado e o futuro de São Tomé e Príncipe.
O jornalista e escritor Xavier de Figueiredo foi uma das vozes centrais da sessão, traçando um retrato aprofundado do autor e da relevância política do seu trabalho. Figueiredo revelou ter acompanhado o projecto desde os seus primórdios, sublinhando a ligação intelectual e humana que mantém com Rafael Branco, figura que sempre ocupou um lugar de destaque na sua rede de contactos, sobretudo no que diz respeito à realidade são-tomense.
Na sua análise, Figueiredo descreveu o embaixador como alguém dotado de profundo conhecimento dos assuntos nacionais, de sensibilidade analítica, frontalidade e um espírito autocrítico genuíno. A obra, segundo ele, reflecte fielmente estas qualidades, apresentando-se como uma leitura directa dos sucessos e fracassos que moldaram meio século da história do arquipélago. O orador identificou três grandes advertências presentes no livro: a erosão dos valores morais e políticos provocada por interesses pessoais e de grupo; o surgimento de ameaças ao sistema democrático, expressas em tendências autoritárias e projectos de poder duradouro; e os impactos económicos e sociais dessa degradação, descritos como uma banalização do mal. Figueiredo concluiu a sua intervenção elogiando a dimensão autobiográfica e humana da obra, não sem antes deixar uma nota de humor, assegurando que Rafael Branco «não é tão mau poeta como pensa».
O poeta angolano João Fernando André classificou o livro como «uma obra necessária», salientando que representa o testemunho de alguém que viveu de forma íntima o processo de formação de um Estado africano de língua portuguesa. A narrativa, na sua perspectiva, combina memória política e experiência humana, enriquecida por poemas que conferem ao texto uma profundidade emocional assinalável.
O próprio Rafael Branco explicou que o livro constitui uma tentativa de mostrar quem verdadeiramente é, assente na honestidade da reflexão sobre os acertos e os erros da sua trajectória. Recordou os anos passados ao serviço das Nações Unidas como um dos períodos mais gratificantes da sua vida profissional e defendeu a necessidade de uma reforma no Conselho de Segurança da organização.
Um dos momentos mais marcantes da sessão surgiu com a intervenção do jovem escritor são-tomense Valério, que questionou o contributo da obra para as novas gerações. Branco respondeu que uma sociedade evolui quando valoriza o bem comum, o conhecimento e o sentido de comunidade, alertando para os perigos da superficialidade e da opinião sem fundamentação.
A sessão teve lugar na Biblioteca dos Coruchéus, em Alvalade, Lisboa, a 17 de Abril de 2026, e consagrou O Meu Nome é Joaquim como uma obra viva, que procura influenciar o debate político e cultural no espaço lusófono. Mais do que uma apresentação literária, o evento transformou-se num encontro entre gerações, onde passado e futuro dialogaram livremente à volta de uma obra carregada de memória, consciência crítica e esperança.


