Um surto de hantavírus a bordo de um navio de cruzeiro está a mobilizar autoridades sanitárias em vários continentes, após três mortes confirmadas e múltiplos casos de infecção identificados entre passageiros que percorreram o Atlântico Sul desde o início de Abril. A situação, classificada como inédita pela Organização Mundial da Saúde (OMS), coloca pela primeira vez a transmissão desta doença no contexto de uma embarcação de cruzeiro. Dos oito casos registados, cinco foram confirmados laboratorialmente, todos correspondendo ao vírus Andes, variante presente na América do Sul, predominantemente na Argentina e no Chile.
O navio MV Hondius, operado pela Oceanwide Expeditions, partiu a 1 de Abril da América do Sul, atravessando a Antártica e diversas ilhas remotas do Atlântico antes de aportar em Cabo Verde, onde três passageiros foram evacuados. Dois chegaram a Amesterdão na quarta-feira — um cidadão holandês de 41 anos e um britânico de 56 anos, ambos em estado grave —, sendo transportados para hospitais na Alemanha e nos Países Baixos. A embarcação seguiu depois para as Ilhas Canárias com cerca de 150 pessoas isoladas nas cabines. Investigadores argentinos avançaram, em declarações anónimas, que a hipótese mais provável é a de que o primeiro caso tenha ocorrido em Ushuaia, onde um casal holandês poderá ter sido exposto a roedores infectados durante uma visita a um aterro.
Ao longo do percurso, vários passageiros desembarcaram em diferentes pontos, complicando o rastreio. Na África do Sul, um britânico encontra-se em estado crítico numa unidade de cuidados intensivos, enquanto a esposa do primeiro caso faleceu no aeroporto de Joanesburgo. Na Suíça, um passageiro que desembarcou em Santa Helena está internado em Zurique. No Reino Unido, dois passageiros que regressaram mais cedo e um pequeno número de contactos próximos encontram-se em isolamento, todos sem sintomas. As autoridades sul-africanas localizaram 42 dos 62 potenciais contactos dos casos confirmados, tendo todos testado negativo.
A OMS sublinha que o risco para o público em geral é baixo, mas alerta para a gravidade da doença em quem for infectado. Maria Van Kerkhove, principal especialista em epidemias da organização, afirmou que “isto não é o próximo COVID, mas é uma doença infecciosa grave”, salientando que os doentes podem desenvolver dificuldades respiratórias severas e necessitar de ventilação mecânica. Não existe tratamento específico aprovado, sendo a intervenção médica precoce determinante para a sobrevivência. O período de incubação pode variar entre uma e seis semanas.


