O regresso à pintura, após quase nove anos consagrados ao desenho, deu origem a um conjunto de obras de cariz profundamente autobiográfico, reunido na exposição Hiato, patente ao público no Luxemburgo até amanhã, na Galeria Nosbaum Reding, na Rue Wiltheim, na cidade do Luxemburgo. A escolha do título, segundo o artista confessou numa conversa intimista com o Letzebuerg Hoje. reflecte não apenas essa interrupção no percurso do artista, mas também a natureza intimista de um trabalho que recupera memórias de infância e lugares marcantes da vida de Nuno Lorena.
Do ponto de vista técnico, trata-se de pintura, num momento em que o autor sentiu falta de voltar a este meio depois de um longo período dedicado ao desenho — uma das razões que está na origem do título. À excepção de cinco telas, as obras retratam cenas de interiores, quase sempre acompanhadas de naturezas-mortas, com destaque para composições florais. Entre elas contam-se ainda dois quadros de cortinas, tentativas de fixar recordações da infância, que reforçam o sentido autobiográfico da mostra. Em declarações ao Letzebuerg Hoje, o pintor sublinhou que esta dimensão pessoal percorre todo o conjunto.

As cinco telas que escapam a essa lógica são paisagens marítimas. Quatro delas representam o mar da Ericeira, terra a que o artista se mantém afectivamente ligado, por aí ter praticamente crescido, vivido e passado férias. A quinta, de cromatismo distinto, evoca o Algarve, mais concretamente a Ria Formosa, região onde viveu durante vinte e dois anos, em Faro. Essa pintura retrata um dia particularmente invulgar, marcado pelo incêndio que deflagrou em Monchique, a poucos quilómetros da cidade: o céu tornou-se cor-de-laranja, com nuvens de fumo e uma chuva de cinzas trazidas pelos ventos. O resultado é um mar de águas serenas, típico da costa algarvia, que esconde a violência do fogo e que, à primeira vista, pode confundir-se com um pôr-do-sol ou um amanhecer.
Natural de Alvalade, em Lisboa, e adepto declarado do Sporting, Nuno Lorena fixou-se no Luxemburgo em 2016, à semelhança de muitos compatriotas, em busca de realização profissional e pessoal. Ao Letzebuerg Hoje, defendeu que Portugal não oferece condições para o desenvolvimento de carreiras artísticas, salvo a uma reduzida elite. No Grão-Ducado dedica-se exclusivamente à pintura, profissão que exerce a tempo inteiro a partir do seu ateliê em Differdange, no complexo 1535. O espaço, composto por três edifícios pertencentes à ArcelorMittal, resulta de um protocolo com a câmara municipal — um arrendamento de longa duração — que disponibiliza ateliês a preços acessíveis a artistas de várias áreas, de arquitectos a músicos e pintores, desde que inteiramente dedicados ao seu trabalho. O ateliê pode ser visitado diariamente, estando o artista igualmente contactável através do Instagram.

A exposição, que encerra a 20 de Junho, corresponde ao culminar de um ciclo de trabalho que, no caso do autor, se prolonga habitualmente por cerca de dois anos de pesquisa e produção em ateliê. Para o futuro, perspectiva novas iniciativas, ainda por confirmar, entre as quais uma mostra individual em Metz e contactos com uma galeria em Knokke, na Bélgica, admitindo que, no Luxemburgo, a sua próxima presença deverá ocorrer apenas na Semana da Arte. O artista chamou ainda a atenção para os efeitos persistentes da pandemia no sector, que continuam a condicionar a divulgação do trabalho de muitos dos seus colegas. Paralelamente, dinamiza workshops de iniciação à pintura a óleo, com a duração de uma semana e destinados a adultos, nos quais procura, nas suas palavras, «destraumatizar» uma técnica frequentemente vista como complexa, mas que considera acessível e gratificante.


