A dificuldade em encontrar habitação digna tornou-se o principal motivo de procura de apoio social entre as famílias monoparentais no Luxemburgo, ao ponto de o Centro para Mulheres, Famílias e Famílias Monoparentais (CFFM) acumular actualmente uma lista de espera de quatro meses para as consultas sociais.
O retrato foi traçado por Andréa, responsável pelo serviço, em entrevista ao Letzebuerg Hoje, na qual descreveu o dia a dia de mães que trabalham, muitas vezes em condições precárias, e que mesmo assim não conseguem sair de situações habitacionais «desastrosas».
«É só um salário que entra, a maior parte mínimo, e depois ainda há mais uma, duas ou mesmo três crianças», explicou a responsável, sublinhando que a esmagadora maioria das utentes do serviço não vive apenas de apoios estatais. «A maior parte das nossas clientes trabalha. São mulheres que se agarram à vida, que tentam fazer tudo por tudo», frisou, referindo empregos na restauração, na limpeza e noutros sectores «que muitas pessoas não querem fazer». Num país conhecido pela riqueza, a realidade destas famílias contrasta com as estatísticas: «O PIB é elevado, mas há muitas pessoas que vivem mesmo em risco de pobreza. Os salários elevados enganam um bocadinho as médias.»
Criado em 1986 e integrado na associação Femmes en Détresse, o CFFM disponibiliza consultas sociais e psicológicas a famílias monoparentais — sobretudo mulheres sozinhas com um ou mais filhos. A equipa é composta por três psicólogas, quatro assistentes sociais e educadoras e uma secretária, e acompanha diariamente entre 15 e 20 pessoas, de segunda a sexta-feira. O apoio abrange a procura de trabalho, de casa, de creche ou de formação, mas também a ajuda administrativa, nomeadamente na interpretação de cartas de instituições redigidas num francês que muitas utentes têm dificuldade em compreender.
A associação-mãe, que existe há mais de 40 anos no Grão-Ducado, emprega cerca de 150 pessoas repartidas por 15 serviços diferentes. O CFFM é financiado pelo Ministério da Igualdade, embora a Femmes en Détresse trabalhe igualmente com outros ministérios, como o da Família e o da Educação. Nos casos de violência doméstica, o centro encaminha as vítimas para os serviços especializados da associação, assumindo-se como «a última porta»: intervém quando as mulheres já estão em segurança, mas precisam de auxílio para se reconstruírem enquanto família monoparental. «Estar de repente sozinha com filhos — precisamos de ajuda», resumiu Andréa.
O problema do alojamento agrava a pressão sobre o serviço. O CFFM não dispõe de habitação social própria, limitando-se a apresentar pedidos junto de outras instituições e a acompanhar as famílias durante o processo. Esses acompanhamentos, que normalmente duravam três anos, prolongam-se agora por muito mais tempo, o que reduz a capacidade de receber novos casos. Ainda assim, a responsável garante que a equipa faz «mesmo o melhor» para responder: quem precisar de apoio deve contactar a secretária por telefone, explicar brevemente a situação e aguardar na lista de espera até haver disponibilidade.
A língua não constitui obstáculo para a comunidade lusófona. As assistentes sociais falam português, e há na equipa quem fale igualmente italiano e espanhol. As três psicólogas não dominam o português, mas o serviço recorre a tradutores solicitados à Cruz Vermelha. «É sempre mais complicado trabalhar psicologicamente, numa terapia, com tradutor, mas é possível», reconheceu a entrevistada, que fez ainda questão de sublinhar que o centro não se destina exclusivamente a mulheres: «Um homem também é bem-vindo aqui, sem problema algum, estando numa situação monoparental.»
Filha de mãe solteira até aos 12 anos, Andréa explicou que foi essa vivência que a conduziu à profissão. «De ver tudo o que a minha mãe teve de fazer e lutar, gostava de participar também disso e dar da minha pessoa um bocadinho para ajudar pessoas que precisam», contou. Chegou a ponderar trabalhar para os Médicos Sem Fronteiras e hesitou entre a psicologia e o serviço social, tendo optado pela segunda via por lhe permitir estar «mesmo com as pessoas», no terreno. Escreveu a tese universitária sobre famílias monoparentais e trabalha no CFFM desde que saiu da universidade, há quase oito anos.
Apesar da dureza de muitos relatos, a responsável descreve o trabalho como gratificante. «Às vezes as mulheres entram aqui com uma cara de desespero, tristeza e revolta, e saem daqui mais leves», observou. E deixou um conselho, inspirado numa utente que acompanha há cinco anos — uma mãe de quatro filhos que trabalha na restauração: viver um dia de cada vez. «Se me concentrar no que posso fazer hoje para conseguir acabar o dia, nas pequenas coisas que conseguimos no dia-a-dia… Essas mulheres têm uma força incrível. Nós aqui no serviço nem sabemos onde é que elas a vão buscar.»
O CFFM funciona na rue de Bonnevoie, n.º 95, na cidade do Luxemburgo, de segunda a sexta-feira, das 9h00 às 12h00 e das 14h00 às 17h00, e pode ser contactado através do número 49 00 51-1. Segundo a página oficial do serviço, as actividades são financiadas por uma convenção entre a Femmes en Détresse e o Ministério da Igualdade entre Mulheres e Homens.


