A reinvenção da tradição musical cabo-verdiana a partir de um olhar contemporâneo e intergeracional ganha forma num novo trabalho discográfico que cruza memória colectiva e experimentação sonora. Intitulado «Sentimento Perdido», o álbum é apresentado esta sexta-feira, 26 de junho, no Centro Cultural Cabo Verde, em Lisboa, no âmbito do projecto «Kriolo Sounds – Cada Nota, Uma Estória», numa sessão a cargo do grupo cabo-verdiano Quês Moce 2.0.
De acordo com o Expresso das Ilhas, a obra evoca a tradição ao mesmo tempo que se reinventa a partir de novas ideias e inspirações conceptuais nos planos harmónico, melódico e orquestral. Segundo a mesma publicação, trata-se de «um elenco intergeracional e internacional que junta memórias colectivas, reinvenção, novas formas de criar e de compor música de Cabo Verde».
A direcção musical e artística, bem como os teclados, ficam a cargo de Humberto Ramos, num conjunto que distribui as vozes por Dany Silva, Ana Firmino, Djone Santos, Frabizio Croce, Rui Gomes e Íris Lima. Nos violões, Humberto Évora e Bilocas Lima alternam registos de alegria e de melancolia, enquanto Pinúria (JL Ramos) sustenta o baixo eléctrico e Blimundo imprime o pulsar rítmico na bateria e percussão. As cordas dos violinos de Filippo Baraldi e Ivan Stabila completam a paleta sonora.
Composto por dez temas, «Sentimento Perdido» integra oito mornas com letras em língua cabo-verdiana, uma composição com letra em dialecto italiano e uma coladeira, apresentada como homenagem a este género de ritmo quente e cativante. O disco inclui ainda peças inteiramente instrumentais, nas quais, conforme o Expresso das Ilhas, a palavra cede lugar à eloquência dos instrumentos, num conjunto descrito como tendo «sabor a crioulidade e morabeza». Todas as composições são inéditas e revelam, segundo o jornal, uma notável complexidade harmónica e melódica que se afirma como contributo para a valorização contínua da música cabo-verdiana.
Cada faixa funciona como um pequeno quadro sonoro que retrata episódios, paisagens, afectos e lugares do quotidiano crioulo, desde o luar das serenatas às praias douradas e ao azul do mar e do céu. O recurso a tecnologias instrumentais do século XXI confere ao trabalho, de acordo com a mesma fonte, a capacidade de despertar saudades e de provocar arrepios melódicos, num convite ao relaxamento espiritual e à contemplação.
Fundado em 1977, o grupo tinha já editado o LP «Pará B’ Ôvi». A apresentação insere-se no «Kriolo Sounds – Cada Nota, Uma Estória», iniciativa que procura apoiar artistas de Cabo Verde e dos restantes países da CPLP e dar a conhecer ao público a música destes territórios. Mensalmente, um artista realiza uma actuação intimista para uma pequena plateia, recebendo directamente a totalidade do valor das entradas, sem a intermediação de qualquer agência de representação. A participação faz-se por convite do Centro Cultural Cabo Verde, dirigido ao artista, ou mediante manifestação deste junto da instituição.


