A defesa do direito à autodeterminação dos habitantes das Ilhas Malvinas e o convite formal para que as Nações Unidas enviem uma missão de visita ao arquipélago marcaram a intervenção apresentada em Managua, capital da Nicarágua, no âmbito do Seminário Regional do Comité Especial sobre Descolonização, conhecido como Comité dos 24. De acordo com o jornal MercoPress, a posição do arquipélago foi levada ao organismo por Michael Goss, membro da Assembleia Legislativa das Ilhas, que aproveitou também para questionar a falta de cumprimento, por parte da Argentina, do pacote de cooperação bilateral acordado com o Reino Unido em setembro de 2024.
«Não temos nada a esconder e tudo a mostrar», afirmou o legislador, que representa Camp, a circunscrição rural que abrange o interior e as localidades mais remotas do arquipélago. Pertencente à sexta geração de habitantes — o seu antepassado chegou a Port Louis vindo de Stoke-on-Trent em 1841 —, Goss interveio sem credenciais políticas ou diplomáticas formais. «Não sou diplomata nem político de carreira. Estou aqui porque sou um habitante das Ilhas Malvinas, e as decisões sobre o nosso futuro devem ser informadas pela voz de alguém que realmente vive essa realidade», declarou.
O Seminário Regional, que se realiza anualmente antes da sessão principal do comité em Nova Iorque, reúne representantes de Estados-membros da ONU, potências administradoras e territórios não autónomos. Na sua intervenção, o legislador recordou que no referendo de 2013, com uma participação de 92%, 99,8% dos habitantes votaram pela manutenção do estatuto de Território Britânico Ultramarino, consulta observada por uma missão internacional liderada pelos Estados Unidos e que incluiu Canadá, México, Uruguai, Paraguai, Chile e Nova Zelândia, cuja conclusão foi que o processo reflectia «a vontade democrática» do eleitorado das Ilhas. Já as eleições legislativas de dezembro de 2024, que conferiram a Goss o seu assento, foram acompanhadas pela Associação Parlamentar da Commonwealth, que descreveu o processo como «calmo e bem administrado», tendo a participação na circunscrição de Camp atingido 90%.
O modelo institucional actual foi igualmente detalhado durante a intervenção. O arquipélago, com uma comunidade de 3600 pessoas e 62 nacionalidades, auto-administra-se com leis próprias, um orçamento totalmente financiado pela economia local e uma política de imigração independente, cabendo ao Reino Unido apenas as áreas de defesa e assuntos internacionais, definidas como necessárias dada a reivindicação argentina que se mantém há quase dois séculos. Goss criticou a resolução anual que o Comité dos 24 aprova em relação ao arquipélago, argumentando que um processo bilateral entre Londres e Buenos Aires que ignora os habitantes «não é diálogo, mas uma exigência disfarçada de processo diplomático», uma vez que a Constituição Argentina define a recuperação da soberania como um objectivo «permanente e irrenunciável». Quanto ao pacote bilateral acordado em setembro de 2024, o legislador notou que as Malvinas cumpriram a sua parte em dezembro desse ano, organizando e facilitando a visita de familiares de soldados argentinos sepultados no arquipélago, enquanto a Argentina não avançou na retoma do voo para São Paulo nem na troca de informações pesqueiras. «Continuamos disponíveis. Pedimos apenas que os compromissos assumidos sejam honrados», concluiu.


