Mais de mil ocorrências de fraude financeira foram registadas em Angola durante o primeiro semestre do ano, a maioria ligada ao uso de cartões internacionais. O número foi revelado por Sílvia Pires, administradora executiva da EMIS, durante uma mesa-redonda do jornal Expansão que juntou representantes do sector bancário e da defesa do consumidor. A constatação é alarmante, mas não surpreendente: quanto mais os serviços financeiros migrarem para canais digitais, maior a superfície de ataque para quem opera do lado de lá da lei.
A literacia digital é, para Pires, a primeira linha de defesa. Os clientes precisam de compreender os riscos inerentes à banca online e de adoptar práticas de segurança mínimas — senhas robustas, verificação de transacções, desconfiança de links suspeitos. Gerson Lima, director de Risco do Banco YETU, concorda que a digitalização multiplica as tentativas de fraude, mas sublinha que os bancos têm investido em sistemas de prevenção, monitorização e controlo. A vulnerabilidade, no entanto, reside num lugar que a tecnologia não consegue blindar: o próprio cliente. A engenharia social — a arte de manipular pessoas para que entreguem dados sensíveis — continua a ser o método mais eficaz dos burladores, mais do que qualquer falha de software.
Nelson Prata, presidente da Associação Angolana de Consumidores de Serviços e Produtos Bancários, resumiu o dilema com uma imagem simples: a digitalização é «uma moeda de duas faces». A conveniência de transferir dinheiro do sofá de casa vem acompanhada da exposição a riscos que exigem vigilância constante. Prata defende um reforço dos mecanismos de protecção por parte das instituições, mas também um investimento contínuo em campanhas de educação financeira e digital. Não basta que os bancos tenham firewalls sofisticados se o utilizador clica descuidadamente num email de phishing.
A mesa-redonda do Expansão, no formato «Desconstruindo — Conversas do Expansão», ilustra um debate que transcende Angola. Os países africanos de língua portuguesa partilham desafios similares: infra-estruturas bancárias em rápida modernização, populações com níveis heterogéneos de literacia digital, e legislação de protecção do consumidor que muitas vezes não acompanha a velocidade da inovação tecnológica. A fraude bancária não é um problema de Angola — é um problema de transição. E a transição, como bem sabem quem a vive, é sempre o momento mais vulnerável.


