A primeira subida das taxas de juro directoras em quase três anos marcou a resposta da zona euro ao choque energético provocado pelo conflito no Médio Oriente, com um aumento de 25 pontos base decidido na reunião do Conselho do Banco Central Europeu (BCE). A acta do encontro, divulgada a 9 de julho, revela que a proposta apresentada pelo economista-chefe, Philip Lane, assentou na persistência do choque energético e na necessidade de manter as expectativas de inflação ancoradas no objectivo de 2%. As taxas da facilidade permanente de depósito, das operações principais de refinanciamento e da facilidade permanente de cedência de liquidez passaram para 2,25%, 2,40% e 2,65%, respectivamente.
Os mercados financeiros da zona euro viveram, desde a reunião anterior de 29 e 30 de abril, um período marcado por duas forças contraditórias, segundo a apresentação de Isabel Schnabel, membro da Comissão Executiva do BCE: o conflito não resolvido no Médio Oriente e o dinamismo global do investimento em inteligência artificial. A contínua perturbação do transporte marítimo no Estreito de Ormuz reforçou a expectativa de que os preços do petróleo permanecerão elevados durante mais tempo, apesar da descida acentuada nos prazos mais curtos. O crude Brent recuou de 118 para cerca de 94 dólares por barril desde os máximos de abril, mas mantém-se aproximadamente 30% acima dos níveis anteriores à guerra, enquanto os preços dos combustíveis refinados, como a gasolina, o gasóleo e o combustível de aviação, subiram entre 40% e 45% desde o início do conflito, alastrando aos fertilizantes, aos plásticos e aos custos alimentares.
A inflação na zona euro atingiu 3,2% em maio, o terceiro mês consecutivo acima do objectivo de 2%, com a componente subjacente a subir de 2,2% para 2,5% e os serviços a acelerarem de 3,0% para 3,5%. As projecções de junho apontam para uma inflação média de 3,0% em 2026, 2,3% em 2027 e 2,0% em 2028, uma revisão em alta face a março que reflecte a trajectória mais elevada dos preços da energia e os seus efeitos indirectos nos bens e nos serviços. Os mercados anteviam, à data da reunião, cerca de três subidas das taxas no total deste ano, ao passo que a mediana do inquérito do BCE aos analistas monetários apontava para apenas duas. As expectativas de inflação a mais longo prazo permanecem, contudo, ancoradas em torno de 2%.
No plano da actividade económica, a economia da zona euro contraiu inesperadamente 0,2% no primeiro trimestre, um resultado explicado pela quebra da actividade multinacional medida na Irlanda; excluído esse efeito estatístico, o crescimento foi de 0,3%, sustentado pela procura interna e pelas exportações. O crescimento mundial, excluindo a zona euro, situou-se em 0,7% no trimestre, apoiado pelo investimento ligado à inteligência artificial, que tem amortecido os efeitos negativos do choque energético sobre a procura global. Para a zona euro, as projecções apontam para um crescimento de 0,8% em 2026, 1,2% em 2027 e 1,5% em 2028, com os riscos a pender para o lado descendente devido à guerra no Médio Oriente e à eventual perturbação prolongada das cadeias de abastecimento.
A decisão de subir as taxas foi considerada robusta num vasto leque de cenários, dada a ausência de tensões financeiras e a solidez dos balanços das famílias, das empresas e dos bancos, que deverá permitir uma transmissão ordenada da política monetária. O Conselho reafirmou a abordagem dependente dos dados, decidida reunião a reunião e sem compromisso prévio com qualquer trajectória de taxas, sublinhando que os efeitos indirectos do choque energético se tornam cada vez mais visíveis nos preços, embora não existam ainda sinais de efeitos de segunda ordem através dos salários.


