Situada na província de Zhejiang, na China, a cidade de Nanxun ganhou notoriedade não só pela sua beleza cênica, mas também pela aposta numa antiga via fluvial para relançar o turismo cultural
Uma via de água com séculos de história está a ser transformada no eixo estratégico de renovação urbana e cultural de Nanxun, cidade do distrito de Huzhou, na província de Zhejiang, no leste da China. A requalificação da chamada “via de água do ouro branco” — o canal Jiawutang — visa articular a antiga zona patrimonial com os novos bairros da cidade e dar uma resposta concreta à pressão turística crescente que se instalou desde que a entrada passou a ser gratuita.
O canal Jiawutang tem as suas origens na dinastia Ming. Segundo a imprensa chinesa, durante o reinado do imperador Jiajing, no século XVI, foi escavado para ligar Wuzhen a Nanxun como linha de defesa contra invasores costeiros. Concluído no ano de Jiawu, correspondente a 1534, o troço norte ficou com o nome Jiawutang e o sul com o de Xitang. A ligação histórica com a seda de Jili é directa: era pelo Jiawutang que a seda saía das aldeias produtoras, atravessava os armazéns comerciais e alcançava o mundo. Como exportava seda branca e recebia prata em troca, o canal ficou conhecido como a “via de água do ouro branco”.
Nanxun, fundada sobre a prosperidade da indústria da seda, inscrita no Património Mundial da UNESCO em 2014 enquanto nó relevante do Grande Canal, tornou-se num destino de massas após anunciar, em janeiro de 2023, a entrada gratuita permanente para todos os visitantes. Em 2025, o número de visitas ultrapassou os 30 milhões. A supressão do bilhete alterou profundamente o comportamento dos turistas, que passaram a ficar mais tempo, mas a capacidade de acolhimento da zona histórica atingiu os seus limites. A expansão para além do núcleo patrimonial tornou-se inevitável.
Vista do ar, a frente ribeirinha do Jiawutang desenha uma faixa em forma de Y que une a área histórica de Nanxun ao norte com a cidade nova a sul. Desde 2025, as autoridades locais têm vindo a recuperar e qualificar os espaços marginais do canal, com o objectivo de criar um corredor de actividade cultural, lazer e consumo. Ao longo das margens surgiram cafés, restaurantes, ateliers de criação cultural e um mercado nocturno junto à ponte Dingjia, instalado em contentores coloridos com o tema “Mil anos de animação, a alegria dos contentores”. Nas proximidades do lago Shenzhuang foi inaugurado um hotel da cadeia Hilton com arquitectura esférica inserida na superfície da água. A experiência de grupos internacionais de turistas — como a russa Alfiya, que registou a sua visita nas redes sociais após participar numa visita organizada de mil pessoas — ilustra a projecção que Nanxun tem vindo a ganhar fora da China.
À semelhança do que aconteceu com o rio Singapura — cujas docas reconvertidas em zona de restauração e animação nocturna atraem visitantes de todo o mundo — ou com o sistema de canais interiores de Fuzhou, onde foram abertas dez rotas de navegação urbana regular, a imprensa chinesa destaca o potencial ainda por explorar do Jiawutang. O modelo de transformação assenta na ideia de que o canal pode deixar de ser apenas uma via de passagem para se tornar o eixo estruturante de uma nova relação entre a cidade histórica e a cidade contemporânea: o troço norte a preservar o carácter da aldeia antiga, o troço leste a incorporar a vivência lacustre, e o troço oeste a concentrar a animação gastronómica. O abandono do modelo baseado na venda de bilhetes em favor de uma economia de experiências — restauração, alojamento, percursos nocturnos — representa a aposta central de Nanxun para consolidar o seu novo posicionamento turístico.


