Com números a aumentar e uma associação que nasceu para acolher, a comunidade brasileira luxemburguesa enfrenta os desafios da habitação, da língua e da validação de diplomas. Mas a gratidão e a vontade de construir falam mais alto.
Nasceu no Brasil, mas tem alma luxemburguesa. Em entrevista ao Letzebuerg Hoje, Roberto Alff, presidente da ABS Lux – Associação dos Brasileiros com Nacionalidade Luxemburguesa, conta como a organização chegou para preencher um vazio que nem o consulado honorário, nem as outras associações conseguem tapar. A ABS Lux é irmã da ACLUX, que já representa quase mil associados no Brasil e auxilia os cerca de 35 mil cidadãos luxemburgueses que vivem do outro lado do Atlântico. Mas enquanto a ACLUX trata da documentação e da burocracia para obter a cidadania, a ABS Lux pega no testemunho na fase seguinte: a chegada à Europa.
Os números que ninguém sabe contar
Quantos brasileiros com nacionalidade luxemburguesa vivem no Grão-Ducado? A pergunta é mais difícil do que parece. Os números oficiais são controversos, explica Roberto Alff ao Letzebuerg Hoje. Quando um brasileiro com dupla cidadania chega a Luxemburgo, as estatísticas contam-no como luxemburguês, não como brasileiro. O caso do próprio presidente da ABS Lux é paradigmático: ele é considerado luxemburguês com segunda cidadania brasileira. Os seus filhos, que têm três nacionalidades, nem sequer aparecem em registo nenhum. Apesar destas dificuldades, os números estimados são impressionantes: 18.500 brasileiros vivem atualmente no Luxemburgo, 10 mil com apenas cidadania brasileira e cerca de 2 mil com cidadania luxemburguesa. E estes números, garante Alff, tendem a aumentar consideravelmente.
O sul do Brasil encontra a Europa
Não é por acaso que a comunidade cresce. As pessoas que vêm com cidadania luxemburguesa são maioritariamente do sul do Brasil e carregam um vínculo cultural impressionantemente similar ao luxemburguês. Muitas famílias têm histórias de emigração que remontam a várias gerações. Roberto Alff revelou ao Letzebuerg Hoje que está neste momento a preparar-se para participar no terceiro encontro das famílias luxemburguesas no Brasil, onde vai falar sobre a vida no Grão-Ducado – os acessos, os desafios e as dificuldades que é importante conhecer antes de dar o passo.
“Mire pequeno e erre pequeno”
A ambição da ABS Lux é grande, mas a abordagem é pragmática. “Eu fui do quartel, o meu sargento sempre dizia: mire pequeno e erre pequeno”, explica Alff na entrevista ao Letzebuerg Hoje. Por isso, a associação começou pelo processo mais fácil – e ao mesmo tempo mais difícil para quem chega: a integração. O inverno luxemburguês, que para os brasileiros dura quase sete meses, pode ser devastador para quem não furar a bolha inicial. Sem amigos, sem grupo de suporte, a frustração cresce. A ABS Lux organiza passeios culturais, colóquios sobre questões práticas – placas de trânsito, troca de carta de condução, documentos da comuna – e eventos que ensinam a cultura luxemburguesa, para que quem chega se apaixone pelo país.
O sonho da embaixada e o trabalho da iLux
Mas a associação tem ambições maiores. Alff defende que Luxemburgo deveria ter uma embaixada brasileira, em reciprocidade com o que o Grão-Ducado já fez no Brasil. “Seria importante para esse público que está crescendo aqui”, afirmou ao Letzebuerg Hoje. Por enquanto, a ABS Lux trabalha em conjunto com o consulado honorário e com outras associações para pressionar por mudanças. Um dos campos onde os avanços são visíveis é na validação de diplomas, especialmente na área da medicina dentária. Já são mais de 20 dentistas brasileiros habilitados a trabalhar no Luxemburgo, quase todos com consultório próprio, graças a um trabalho de complementação através de universidades portuguesas.
Paralelamente à associação, Roberto Alff fundou em 2022 a iLux Family Home, uma empresa que nasceu da vontade de ajudar os recém-chegados a encontrar um local seguro, confortável e bem localizado para ficar. A experiência pessoal de ter vivido fora do país ensinou-lhe a importância de ter uma boa base para o processo de integração. “Quando temos uma casa confortável para voltar todos os dias, as oportunidades surgem, as portas se abrem e os nossos sonhos se tornam realidade”, afirma. Atualmente, a iLux conta com duas casas em Esperange – uma com oito quartos e outra com estúdios e suítes – e está a desenvolver um terceiro projeto em Derenbach, no norte do Luxemburgo, com cinco apartamentos, três já alugados e dois a ser renovados para ficarem disponíveis em dezembro. O objetivo da iLux é simples: ajudar os recém-chegados a sentirem-se seguros e bem-vindos, adaptando-se de forma rápida e tranquila ao novo país.
Os desafios: habitação e língua
Os desafios, porém, são imensos. O maior de todos é a habitação. Não há casas suficientes, e as que existem estão muitas vezes fora das condições para receber quem chega. Alff defende soluções inovadoras: co-living, partilha, reaproveitamento de casas abandonadas – “temos de fazer mais com menos”. O segundo grande obstáculo é a língua. “A língua cotidiana é o francês”, avisa Alff, apesar de o português ser falado por um terço da população. Há aqui, admite, um “mea culpa”: as pessoas deviam vir mais preparadas, com uma base de francês sólida. Ao mesmo tempo, os institutos de línguas, como o INL, estão cheios, e arranjar uma vaga é um “absurdo”, lamenta ao Letzebuerg Hoje.
Um apelo aos governantes
Apesar de tudo, Roberto Alff tem uma mensagem de gratidão. “Recebeu a gente de uma forma muito elegante, muito simpática, muito de braços abertos”, diz na entrevista. “Quem me conhece, diz que eu falo muito bem de Luxemburgo em todos os quatro cantos.” O seu apelo, dirigido aos governantes de todas as escalas – da comuna ao diretório nacional – é para que repensem a habitação, clarifiquem as normas e melhorem o acesso ao ensino das línguas. “Luxemburgo precisa desta mão de obra qualificada para crescer, precisa de gente nova para continuar construindo este país”, afirma. Se a base não for construída de forma consistente, avisa, os imigrantes vão embora. Porque, num país de imigrantes, quem sente um aperto, parte.


